Nunca ouvi um alentejano cantar sozinho
com egoísmo de fonte.
Quando sente voos na garganta
desce ao caminho
da solidão do monte
e canta
em coro com a família do vizinho.
Não me parece pois necessária
outra razão
- ou desejo
de arrancar o sol do chão -
para explicar
a reforma agrária
no Alentejo.
É apenas uma certa maneira de cantar.
José Gomes Ferreira
Tuesday, 6 September 2011
Uma certa maneira de cantar
Saturday, 3 September 2011
Poema
(UM MOMENTO DE FILOSOFIA BARATA)
Para além do «ser ou não ser» dos problemas ocos,
o que importa é isto:
- Penso nos outros.
Logo existo.
(ARTE POÉTICA)
Liberdade
é também vontade.
Benditas roseiras
que em vez de rosas
dão nuvens e bandeiras.
(XLII)
E se eu se súbito gritasse
nesta voz de lágrimas sem face:
Eh! companheiros da plataforma
presos ao apagar do mesmo pavio!
Porque não nos amamos uns aos outros
e damos as mãos
- sim, as nossas mãos
onde apodrecem aranhas de bafio?
Eh! companheiros da plataforma!
(Não empurrem, Irmãos.)
José Gomes Ferreira
(três poemas de Eléctrico)
Thursday, 1 September 2011
Bandeirinhas
Parei a olhar o mapa da guerra; tinham-no afixado
na frontaria dos escritórios do jornal.
Bandeirinhas - vermelhas e amarelas bandeirinhas,
azuis e pretas bandeirinhas - são deslocadas para trás
e para diante sobre o mapa.
Um rapaz sorridente, cheio de sardas,
sobe a escada, atira uma piada
a alguém que está entre a multidão,
depois espeta uma bandeirinha amarela
uma polegada para oeste
e atrás da amarela espeta uma preta, uma polegada para oeste.
(Dez mil rapazes contorcem-se num lago de sangue
à margem de um rio,
feridos, em convulsões, implorando água,
alguns já no estertor da morte).
Quem perguntará a si mesmo
quanto custou deslocar uma polegada
duas bandeirinhas aqui, no mapa da guerra,
na frontaria do jornal,
onde um jovem sardento nos sorri?
Carl Sandburg
Tuesday, 30 August 2011
Canção burguesa
Consolo e delícia
da vida burguesa...
Sete horas em ponto
o jantar na mesa;
café bem quentinho,
conversa tranquila,
e um lençol de linho
esperando o seu dono
para um belo sono...
(Que bom não ter sonhos,
dormir sossegado!)
Já estou acordado,
já salto da cama,
- Maria, Maria,
traga os meus chinelos,
traga o meu pijama...
A alma lavada,
o corpo limpinho,
- Bom dia, vizinha!
- Bom dia, vizinho!
Consolo e delícia
da vida burguesa...
Se isto continua,
morro, com certeza!
Raul de Carvalho
Saturday, 27 August 2011
Amostra sem valor
Eu sei que o meu desespero não interessa a ninguém.
Cada um tem o seu, pessoal e intransmissível;
com ele se entretém
e se julga intangível.
Eu sei que a Humanidade é mais gente do que eu,
sei que o Mundo é maior do que o bairro onde habito,
que o respirar de um só, mesmo que seja o meu,
não pesa num total que tende para infinito.
Eu sei que as dimensões impiedosas da Vida
ignoram todo o homem, dissolvem-no, e, contudo,
nesta insignificância, gratuita e desvalida,
Universo sou eu, com nebulosas e tudo.
António Gedeão
Wednesday, 24 August 2011
Acenda-se na noite...
Acenda-se na noite o facho silencioso.
Enquanto sobre a terra impere a iniquidade,
ninguém poderá ser inteiramente livre.
Armindo Rodrigues
Sunday, 21 August 2011
No fim
Quando terminarmos à dentada
esta tão longa, salitrosa noite,
os sorrisos descerão nos rios,
darão flor na oliveira as lágrimas.
Quando se firmem as águas movediças
a alegria cunhará moeda;
vozes longínquas abrirão janelas;
estaremos vestidos sob o céu.
Egito Gonçalves