Thursday, 18 March 2010

SONETO DO DIFÍCIL RETORNO (1)

Se fores a Portugal, um dia, se
pisares aquele chão, diz-lhe que aguarde
o difícil retorno deste que
nunca pensou voltar assim tão tarde.

Mas houve temporais e lutas e
se a batalha foi ganha sem alarde,
nunca foi sem alarde a raiva de
um inimigo oculto, hostil, cobarde.

Atravessei os mares e os continentes,
conheci outras línguas, outras gentes,
mas a minha poesia é lá que vive.

É lá que sou poeta e na verdade
a minha volta é só formalidade.

- Voltar não voltarei. Sempre lá estive.


Sidónio Muralha
(«Que Saudades do Mar» 1971)

Monday, 15 March 2010

As férias

Deixei o anzol em casa
e a isca, nem tive tempo de pensar,
mas o dia tem uma brandura de asa
- vou pescar.

Pesca sem anzol nem isca.
Ter férias, tem, quem sente
a vida que mordisca
a linha negligente.

Ao pescador que se deixe
a tarefa de pescar.
Ter férias é deixar o peixe
ter suas férias no mar.

Hoje a suavidade
da areia e do sol.
Amanhã, a cidade
e o anzol.


Sidónio Muralha
(«Que Saudades do Mar» - 1971)

Friday, 12 March 2010

Os apaziguadores

A tribo é indócil.
Os apaziguadores são boas pessoas.
Eles cantam a paz
na boca das armas.
Eles desarmam as bocas
quando cantam a paz.
Só não desarmam as armas
porque a paz desarmada
passaria a ser paz
e eles ficariam desempregados
porque não há apaziguadores
em tempo de paz.

O medo tocou os apaziguadores.
O medo tocou o gatilho das armas,
e os indóceis ficaram apaziguados,
definitivamente apaziguados,
horizontalmente apaziguados.

E os apaziguadores voltaram aos lares
e com gestos medidos e apaziguados
guardaram as armas, lavaram as mãos,
e distribuíram beijos pacificamente
a toda a família.


Sidónio Muralha
(«Que Saudades do Mar» - 1971)

Tuesday, 9 March 2010

Manual do perfeito mendigo

Gesto pedindo clemência
cansa.
Modernizem a desgraça.
Ser pedinte com eficiência
é alugar uma criança
e arremessá-la aos olhos de quem passa.

Quem fala de caridade
usa a velha ferramenta
e compromete o seu papel.
Para comover a cidade
preguiçosa e sonolenta
só a criança de aluguel.

Só a criança. De baixo custo.
É pitoresca ou inefável,
sabe chorar, sabe sorrir,
exprime o pavor, o medo, o susto,
é facilmente transportável
e faz o drama explodir.

Pagam os homens comprometidos
para não verem na sua frente
os meninos alugados,
que falsas mães, de olhos doridos,
silenciosas, mostram à gente,
como brinquedos mutilados.


Sidónio Muralha
(«Que Saudades do Mar» - 1971)

Saturday, 6 March 2010

Mágica

O poeta é um prestidigitador.
Tira coelhos da cartola,
sim senhor.
Num gesto, cria pássaros vermelhos.
dizem que não faz parte de uma escola
quando em vez de tirar coelhos da cartola
passa a tirar cartolas dos coelhos.


Sidónio Muralha
(«Que Saudades do Mar» - 1971)

Wednesday, 3 March 2010

Ângulos diferentes

A diferença
entre cavalgar
e ser cavalgado
é pesada
contundente
crucial.

Cavalgando, o cavaleiro exclama:
- é épico.
Cavalgado, o cavalo constata:
- é hípico.

Frases de pouca monta
totalmente desmontadas
quando é o cavalo que monta
o cavaleiro.


Sidónio Muralha
(«Que Saudades do Mar» - 1971)

Monday, 1 March 2010

Profecia

Cada gesto de ódio
cada gesto de prepotência
cada gesto para amordaçar a verdade
cada gesto para amparar a mentira
cada gesto que suprime outro gesto
cada gesto - indigesto

- voltará implacável como um «boomerang»
e ninguém escapará a essa lei.


Sidónio Muralha
(«Que Saudades do Mar» - 1971)