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Wednesday, 24 October 2018

Preciso de espaço


Preciso de espaço
Para ser feliz
Preciso de espaço
Para ser raíz
Ter a rede pronta
Para o mar de sempre
Ter aves e sonho
Quando a terra escuta
E falar de amor
Aos tambores da luta

Ter palavras certas
No sol do caminho
E beber a rir
O doirado vinho
Misturar a vida
Misturar o vento
E nas madrugadas
Quando o povo abraço
Para estar contigo
Preciso de espaço

Preciso de espaço
Para ser feliz
Preciso de espaço
Para ser raíz
Caminhar sem ódio
Falar sem mentira
Ter meus olhos longe
Na luz d'uma estrela
E ser como um rio
Que se agita ao vê-la.

Vasco de Lima Couto

Sunday, 21 October 2018

Dei-te um nome em minha cama


Dei-te um nome em minha cama
Aberta no meu Outono
Depois amei-te em silêncio
Que é uma forma de abandono

Dei-te um nome em minha cama
Rasgada em lençóis de sono
Tentei ser tudo o que era
No gesto da mão parada

Campo e corpo aberto ao vento
Que encaminha a madrugada
Tentei ser a Primavera
Mas chorei meu triste nada

Vi-te ao canto da memória
Por te viver e sonhar
Amor de amor sem glória
Como um rio ao começar
Que te veio contando a história
Onde eu não posso morar.

Vasco de Lima Couto

Thursday, 18 October 2018

Tenho a Pátria num rosto de criança


Tenho a Pátria num rosto de criança
Que me pergunta porque estou alegre...
Ouve criança: são as ruas todas
Com a pureza que o passado deve

E fico a olhar-me e a olhar o reino aberto
Nas palavras caladas do lamento
Que fez a minha infância adormecida
A chorar, em silêncio, o pensamento

Horas perdidas nos regaços frios
Anos achados para te dizer:
O Sol começa agora a ter sentido,
E nós criança, vamos renascer.

Vasco de Lima Couto

Saturday, 21 April 2018

Sempre que tu vens é Primavera


Aqui, em Portugal, donde partiste
No tempo da coragem de lutar
Em cada terra os ventos te murmuram
E as cartas da ausência te procuram
Para que venhas ver o teu lugar

Há um banco debaixo da videira
Que espreita a sombra que outra sombra dera
E há um rio a contar á sua margem
Que te chama do longe da viagem
Pois sempre que tu vens é Primavera

Ficou no cais do céu um lenço branco
Ou numa estrada a curva do horizonte
E uns olhos de mulher contam as horas
Nos pinheiros que sentem que demoras
Nas silvas do caminho ao pé da fonte

Vem ter aquela estrela que deixaste
E essa roseira no jardim que espera
E traz os filhos que te são raíz
Para que sintam o sol do seu país
Pois sempre que tu vens é Primavera.

Vem guardar o tempo na cidade que te espera
Guardar o sol e o mar no vento da amizade
Pois sempre que tu vens é Primavera.


Vasco de Lima Couto

Tuesday, 27 February 2018

Mandei recado à cidade


Vendi as palavras todas
Vendi-as para te encontrar
E comprei o meu silêncio
Como quem vai navegar

Dos jardins falei às flores
Do teu nome começado
Do espelho dos teus olhos
E do teu corpo fechado

Mandei recado á cidade
Mandei recado ao país
E cantei para não estar só
A libertar a raiz

Depois, amor, fui á praia
Molhar-me do coração
E regressei no instante
De me dar à tua mão.

Vasco de Lima Couto

Saturday, 27 January 2018

Eu preciso de ouvir a tua voz


Não me peças amor dá-me prazer
Com amizade se o quiseres mas só
E as palavras caíram sobre o corpo
Como sobre uma estátua o vento e o pó

Não me peças amor, mas o que é isto?
Que nome queres que eu dê à tua idade?
Se a carícia que prende a tua mão
Rende e ultrapassa o tempo da amizade

Se a tua Primavera é meu estado
No caminho da esperança que te exprime
Eu traía a alegria de uma hora
Cada vez que o teu corpo se aproxime

E não perguntes mais do que é preciso
A encontrar na distância que há em nós
Com amor ou sem ele pouco importa
O que eu preciso é de te ouvir a voz.

Vasco de Lima Couto