Showing posts with label Manuel António Pina. Show all posts
Showing posts with label Manuel António Pina. Show all posts
Friday, 9 February 2018
JÁ NÃO É POSSÍVEL
Já tudo é tudo. A perfeição dos
deuses digere o próprio estômago.
O rio da morte corre para a nascente.
O que é feito das palavras senão as palavras?
O que é feito de nós senão
as palavras que nos fazem?
Todas as coisas são perfeitas de
nós até ao infinito, somos pois divinos.
Já não é possível dizer mais nada
mas também não é possível ficar calado.
Eis o verdadeiro rosto do poema.
Assim seja feito: a mais e a menos.
Manuel António Pina
Friday, 12 September 2014
#
O i, número imaginário
com muita imaginação,
imaginara o cenário
para um filme de ficção.
A história começava
dentro de uma equação
de segundo grau, e o vilão
era uma raiz quadrada.
da fórmula resolvente
que assaltava à mão armada
um pobre x que passava,
roubando-lhe o expoente.
O herói, um matemático,
perseguia-a tenazmente
de equação em equação
até uma de quinto grau.
Aí, a raiz quadrada,
finalmente encurralada,
sem fórmula de esconder-se,
acabava por render-se.
A ideia era excelente,
o final um teorema.
Ficariam certamente
na História do Equacinema.
Mas o público queria
filmes de geometria,
ângulos obtusos, tangências,
estúpidas circunferências…
Por isso o i nunca mais
Se deu a fazer ficção.
Cedeu: «Não gasto imaginação
com números irracionais!»
Manuel António Pina
Saturday, 30 August 2014
O Medo
Ninguém me roubará algumas coisas,
nem acerca de elas saberei transigir;
um pequeno morto morre eternamente
em qualquer sítio de tudo isto.
e a sua morte que eu vivo eternamente
quem quer que eu seja e ele seja.
as minhas palavras voltam eternamente a essa morte
como, imóvel, ao coração de um fruto.
serei capaz
de não ter medo de nada,
nem de algumas palavras juntas?
Manuel António Pina
Subscribe to:
Posts (Atom)