I
Era tempo de rusgas.
Havia ordens terminantes
mas era preciso não andar desarmado.
A revista nas estradas era intensa.
Bem armado
passei sem licença de porte de arma
minha mão comprimindo no bolso
as coronhas de 3 poemas.
II
Os que não são poetas
ignoram o que é estarmos em reclusão
armados de conluios até aos dentes.
E na sua imprevidência
não sabem que um poema detido
mesmo de cor na cabeça
também é uma forma
dialéctica
de lhes armar o cerco.
III
Sou daquela raça
dos revolucionários mais perfeitos.
A raça dos homens ao natural
que amam o amor sem as mil
fictícias boas maneiras
burguesas.
Raça
dos revolucionários mais puros
no amor à beleza feminina
na adoração pelas crianças
no respeito pela velhice
no ódio à mendicidade.
Raça de revolucionários cheios de defeitos
e apenas uma pequeníssima qualidade:
Mesmo inseridos em molduras de alvenaria
com uma força de segurança no exterior
não compramos o Amor
e não nos vendemos!
José Craveirinha
(In Cela 1)
Friday, 12 November 2021
Tempo de rusgas
Tuesday, 9 November 2021
Um Homem nunca chora
Acreditava naquela história
do homem que nunca chora.
Eu julgava-me um homem.
Na adolescência
meus filmes de aventuras
punham-me muito longe de ser cobarde
na arrogante criancice do herói de ferro.
Agora tremo.
E agora choro.
Como um homem treme.
Como chora um homem!
José Craveirinha
(In Cela 1)
Friday, 1 November 2019
NINGUÉM
Andaimes
até ao décimo quinto andar
do moderno edifício de betão armado.
O ritmo
florestal dos ferros erguidos
arquitectonicamente no ar
e um transeunte curioso
que pergunta:
- Já caiu alguém dos andaimes?
O pausado ronronar
dos motores a óleos pesados
e a tranquila resposta do senhor empreiteiro:
- Ninguém. Só dois pretos.
José Craveirinha
Saturday, 24 December 2016
TEMPO DE RUSGAS
IEra tempo de rusgas.
Havia ordens terminantes
mas era preciso não andar desarmado.
A revista nas estradas era intensa.
Bem armado
passei sem licença de porte de arma
minha mão comprimindo no bolso
as coronhas de três poemas.
IIOs que não são poetas
ignoram o que é estarmos em reclusão
armados de conluios até aos dentes.
E na sua imprevidência
não sabem que um poema detido
mesmo de cor na cabeça
também é uma forma
dialéctica
de lhes armar o cerco.
IIISou daquela raça
dos revolucionários mais perfeitos.
A raça dos homens ao natural
que amam o amor sem as mil
fictícias boas maneiras
burguesas.
Raça
dos revolucionários mais puros
no amor à beleza feminina
na adoração pelas crianças
no respeito pela velhice
no ódio à mendicidade.
Raça de revolucionários cheios de defeitos
e apenas uma pequeníssima qualidade:
Mesmo inseridos em molduras de alvenaria
com uma força de segurança no exterior
não compramos o Amor
e não nos vendemos!
José Craveirinha
(In Cela 1)
Saturday, 12 November 2016
EU PRESTIDIGITADOR EMÉRITO
Dia de minha visita.
Eu a dizer trivialidades à Maria
e ela a compreender nas entrelinhas.
O Stélio de um lado
o Zeca do outro
e uma vigilante
dupla de gajos
de serviço.
Mas eu prestidigitador emérito
fazia chegar ao seu destino
tesouros de sigilo
em papelinhos
dobrados.
Se um dos execráveis gajos
por acaso me tivesse interceptado
restaria alguém para contar
isto?
José Craveirinha
Sunday, 6 November 2016
AFORISMO
Havia uma formiga
compartilhando comigo
o isolamento
e comendo juntos.
Estávamos iguais
com duas diferenças:
ela não era interrogada
e por descuido podiam pisá-la.
Mas aos dois intencionalmente
podiam pôr-nos de rasto
mas não podiam
ajoelhar-nos.
José Craveirinha
(Cela 1)
Tuesday, 1 November 2016
CALABOUÇO
I
Aqui
onde nem um pide nos ouve
a gritar no dialecto nacional dos oprimidos
os mais fantásticos sonhos
construímos
com o invisível material da esperança
a realidade universal dentro
do povo lá fora!
II
Pátria:
por causa de nós os dois
o único alguém a cheirar o cheiro
do seu próprio medo
é o carcereiro.
Pátria:
o nosso próprio receio
leva-nos ao cúmulo da fúria
mas ao carcereiro o próprio medo
fabrica para toda a polícia
o auge do desespero.
José Craveirinha
Sunday, 30 October 2016
O MEU PREÇO
Eu cidadão anónimo
do País que mais amo sem dizer o nome
se é para me dar de corpo e alma
dou-me todo como daquela vez em Chaimite.
Dou-me em troca de mil crianças felizes
nenhum velho a pedir esmola
uma escola em cada bairro
salário justo nas oficinas
filas de camiões carregados de hortaliças
um exército de operários todos com serviço
um tesouro de belas raparigas maravilhando as praias
e ao vento da minha terra uma grande bandeira sem quinas.
Se é para me dar
dou-me de graça por conta disso.
Mas se é para me vender
vendo-me mas vendo-me muito caro.
Ao preço incondicional
de quanto me pode custar este poema.
José Craveirinha
Monday, 24 October 2016
CONSENSO
Amiga:
No febril conluio dos mútuos póros
nossos lábios sussurram-se
as respectivas músicas
de Amor
e só!
Mas
nos ofegantes muros das penitenciárias
nem uma Sofia Loren
nem uma Gina Lolobrígida
nem uma tal Ava Gardner
e nem tu minha amiga
com todas as vossas ferramentas de prazer
nos boicotam o irredutível consenso deste sofrimento
habitando sem pagar renda esta moradia
de quatro paredes
uma porta de ferro
e uma espécie de janela com persianas de varões.
E no sofrimento deste prédio
nós os presos e os que não foram presos
conseguimos o seguinte consenso:
- Voz de prisão aos carcereiros!
José Craveirinha
Friday, 21 October 2016
REZA, MARIA!
Suam no trabalho as curvadas bestas
e não são bestas
são homens, Maria!
Corre-se a pontapés os cães na fome dos ossos
e não são cães
são seres humanos, Maria!
Feras matam velhos, mulheres e crianças
e não são feras, são homens
e os velhos, as mulheres e as crianças
são os nossos pais
nossas irmãs e nossos filhos, Maria!
Crias morrem à míngua de pão
vermes nas ruas estendem a mão à caridade
e nem crias nem vermes são
mas aleijados meninos sem casa, Maria!
Bichos espreitam nas cercas de arame farpado
curvam cansados dorsos ao peso das cangas
e também não são bichos, Maria!
Do ódio e da guerra dos homens
das mães e das filhas violadas
das crianças mortas de anemia
e de todos que apodrecem nos calabouços
cresce no mundo o girassol da esperança.
Ah, Maria
põe as mãos e reza.
Pelos homens todos
e negros de toda a parte
põe as mãos
e reza, Maria!
José Craveirinha
Tuesday, 18 October 2016
INCLANDESTINIDADE
Eu jamais movi um dedo na clandestinidade.
Mas militante de facto sou.
Por acaso até nasci
numa grande e próspera colónia.
Depus flores na estátua do sr. António Enes
recitei versos de Camões num tal «dia da raça»
e cheguei a cantar uma marcha chamada «A Portuguesa».
Cresci.
Minhas raízes também cresceram
e tornei-me um subversivo na genuína ilegalidade.
Foi assim que eu subversivamente
clandestinizei o governo
ultramarino português.
Foi assim!
José Craveirinha
Saturday, 6 August 2016
UM HOMEM NUNCA CHORA
Acreditava naquela historia
do homem que nunca chora.
Eu julgava-me um homem.
Na adolescência
meus filmes de aventuras
punham-me muito longe de ser cobarde
na arrogante criancice do herói de ferro.
Agora tremo.
E agora choro.
Como um homem treme.
Como chora um homem!
José Craveirinha
Thursday, 18 April 2013
GRITO NEGRO
Eu sou carvão!
E tu arrancas-me brutalmente do chão
e fazes-me tua mina, patrão.
Eu sou carvão!
E tu acendes-me, patrão
para te servir eternamente como força motriz
mas eternamente não, patrão.
Eu sou carvão
e tenho que arder, sim
e queimar tudo com a força da minha combustão.
Eu sou carvão
tenho que arder na exploração
arder até às cinzas da maldição
arder vivo como alcatrão, meu irmão
até não ser mais a tua mina, patrão.
Eu sou carvão
Tenho que arder
queimar tudo com o fogo da minha combustão.
Sim!
Eu serei o teu carvão, patrão!
José Craveirinha
Monday, 15 April 2013
AMOR A DOER
Beijos.
Carícias.
Este infinito sentimento
no recíproco amor homem e mulher
para jamais nos esquecermos de vez
do amor dos amores mais amados
o amor chamado pátria!
Mordaças
Palmatoadas
Calabouços
Anilhas de ferro nos tornozelos.
E no infinito amor a doer
também o infantil beijo dos filhos
a magoada ternura incansável da esposa
um cobertor grande e um pequeno para os quatro
e numa tábua despregada no chão
escondido o jornal a falar do Fidel.
E nem que nos caia em cima o argumento
de cigarro na boca e lúgubre revólver em cima da mesa
não mostraremos o papel guardado na tábua do soalho
ali a fazer do amor escondido
o futuro de um povo.
(1958)
José Craveirinha
(In Cela 1)
Friday, 12 April 2013
NÃO SEI SE É UMA MEDALHA
Alguma vez
um cigarro aceso sentirá o delicioso
sabor de te fumar de repente
o ombro direito?
Pois
sobre isso eu juro
que tudo é pura mentira.
Juro
que nunca um cigarro LM
apagou sua idiossincrásica boca de lume
no calor escuro da minha omoplata.
E também juro
que nunca plagiei um cinzeiro moçambicano
sentado a cheirar o bafo da própria cinza
com o subchefe de brigada Acácio
um deus fantasmagórico envolto
na especial nuvem de tabaco
mistura de Virgínia com pele.
E também confesso
que se esta invenção tivesse acontecido
muito provavelmente seria em mil novecentos
e sessenta e seis à tarde numa certa Vila Algarve
enquanto pela duodécima vez
eu abanava a cabeça
e dizia: - Não sei!
Por acaso
a mancha desta mentira está.
Não sei se é uma medalha.
Mas não sai mais.
(1967)
José Craveirinha
(In Cela 1)
Tuesday, 9 April 2013
OS DOIS MENINOS MAUS ESTUDANTES
- Zeca-e-Stélio!
- Mamã!
- São horas da escola.
- !!!
- Vocês não ouvem? São horas.
- Não queremos ir à escola, mamã.
- O quê? Não vão à escola? Vão, sim-senhor!
- Não vamos à escola, mamã.
- Mas não vão à escola porquê? Não estudaram, não é?
- É a sôra professora, mamã.
- É a sôra professora o quê?
- !!!
- Olhem, amanhã é dia de visita e vou queixar ao vosso pai.
- Não vai queixar, mamã.
- Queixo, sim, vocês vão ver.
- A sôra professora chama... a sôra professora cha...
- A sôra professora não chama nada, vou queixar.
- A sôra professora chama-nos filhos de uma turra, mamã.
- !!!
- Está bem, mamã, não chore.
Não chore, mamã. Nós vamos à escola, mamã.
(Agosto de 1967)
José Craveirinha
(In Cela 1)
Saturday, 18 June 2011
Cela 1
Aqui estou neurasténico
como um cão
danado a lamber a salgada
crosta das velhas feridas.
E em que língua
e com que rosto
aos meus filhos órfãos de pai
eu vou dizer que se esqueçam?
José Craveirinha
Thursday, 12 May 2011
Grito Negro
Eu sou carvão!
E tu arrancas-me brutalmente do chão
e fazes-me tua mina, patrão.
Eu sou carvão!
E tu acendes-me, patrão
para te servir eternamente como força motriz
mas eternamente não, patrão.
Eu sou carvão
e tenho que arder, sim
e queimar tudo com a força da minha combustão.
Eu sou carvão
tenho que arder na exploração
arder até às cinzas da maldição
arder vivo como alcatrão, meu irmão
até não ser mais a tua mina, patrão.
Eu sou carvão!
Tenho que arder
queimar tudo com o fogo da minha combustão.
Sim!
Eu serei o teu carvão, patrão!
José Craveirinha
Wednesday, 3 November 2010
ESTÁTUA DA LIBERDADE
Nova Iorque
há uma gigantesca
estátua da Liberdade à vista.
Lá
dentro da pedra
o coração de Al Capone
extraordinariamente muito pequenino
vende à grande os Estados Unidos.
José Craveirinha
(In «Cela 1»)