1
Quando seu Silva Costa
chegou na ilha
trouxe uma garrafa de aguardente
para o primeiro comércio.
A terra era tão vasta
havia tanto calor
que a água
parecia não ter potência
para acalmar a sede da sua garganta.
Seu Silva Costa
bebeu metade...
E a sua garganta ganhou palavra
para o primeiro comércio...
2
A lua batendo nos palmares
tem carícias de sonho
nos olhos de Sam Màrinha.
Silêncio!
O mar batendo nas rochas
é o eco da ilha.
Silêncio!
Lá no longe
soluçam as cubatas
batidas dum luar sem sonho.
Silêncio!
No canto da rua
os brancos estão fazendo negócios
a golpes de champagne!
3
Mãe-Negra contou:
«eu disse:
filhinho
beba isso coisa não...
Filhinho riu tanto tanto!...»
Nhá Rita calou-se.
Só os olhos e as rugas
estremeceram um sorriso longínquo.
- E depois Mãe-Negra?
«Oh!
filhinho
entrou no vinhateiro
vinhateiro entrou nele...»
Os olhos de nhá Rita
estão avermelhados de tristeza.
«Hum!
filhinho
ficou esquecendo sua mãe!...»
Francisco José Tenreiro
(«Ilha de Nome Santo»)
Saturday, 3 December 2022
O CICLO DO ÁLCOOL
Thursday, 1 December 2022
ILHA DE NOME SANTO
Terra!
das plantações de cacau de copra de café de coco a perderem-se de vista
que vão morrer numa quebra ritmada
num mar azul como o céu mais gostoso de todo o mundo!
Onde o sol bem amarelo bem redondo incendeia as costas
dos homens das mulheres agitando-lhes os nervos
num cadenciar mágico mas humano: capinar sonhar plantar!
Onde as mulheres que têm os braços mais grossos e mais tortos que ocá
são negras como o café que colhem depois de torrado
trabalham ao lado de seu homem numa ajuda toda de músculos!
Onde os moleques vêem seus pais no ritmo diário
deixando correr gostosamente pelo queixo quente
o sabor e a seiva húmida do sàfu maduro!
Onde nas noites estreladas
e uma lua redonda como um fruto
os negros as sangués os moleques os caçô
- mesmo o branco e a sua mulata -
vêm no socopé de uma sinhá
ouvir um malandro tocando no violão
cantando ao violão!
E o som fica ecoando pelo mar...
Onde apesar da pólvora que o branco trouxe num navio escuro
onde apesar da espada e duma bandeira multicor
dizerem poder dizerem força dizerem império branco
é terra de homens cantando vida que os brancos jamais souberam
é terra do sàfu do socopé da mulata
- ui! fetiche di branco! -
é terra do negro leal e forte e valente que nenhum outro!
Francisco José Tenreiro
(«Ilha de Nome Santo»)
Wednesday, 30 November 2022
EPOPEIA
Não mais a África
da vida livre
e dos gritos agudos da azagaia!
Não mais a África
de rios tumultuosos
- veias intumescidas dum corpo em sangue!
Os brancos abriram clareiras
a tiros de carabina.
Nas clareiras fogos
arroxeando a noite tropical.
Fogos!
Milhões de fogos
num terreno em brasa!
Noite de grande lua
e um cântico subindo
do porão do navio.
O som das grilhetas
marcando compasso!
Noite de grande lua
e destino ignorado!...
Foste o homem perdido
em terras estranhas...
No Brasil
ganhaste calo nas costas
nas vastas plantações do café!
No Norte
foste o homem enrodilhado
nas vastas plantações do fumo!
Na calma do descanso nocturno
só a saudade da terra
que ficou do outro lado...
- só as canções bem soluçadas
dum ritmo estranho!...
Os homens do norte
ficaram rasgando
ventres e cavalos
aos homens do sul!
Os homens do norte
estavam cheios
dos ideais maiores
tão grandes
que tudo foi um despropósito!...
Os homens do norte
os mais lúcidos e cheios de ideias
deram-te do que era teu
um pedaço para viveres...
Libéria! Libéria!
Ah!
os homens nas ruas da Libéria
são dollars americanos
ritmicamente deslizando...
Quando cantas nos cabarés
fazendo brilhar o marfim da tua boca
é a África que está chegando!
Quando nas Olimpíadas
corres veloz
é a África que está chegando!
Segue em frente
irmão
Que a tua música
seja o ritmo de uma conquista!
E que o teu ritmo
seja a cadência de uma vida nova!
... para que a tua gargalhada
de novo venha estraçalhar os ares
como gritos agudos de azagaia!
Francisco José Tenreiro
(«Ilha de Nome Santo»)
Thursday, 24 November 2022
CANTO DO OBÓ
O sol golpeia as costas do negro
e os rios de suor ficam correndo.
Ardor!
O machim golpeia o pau
e os rios de seiva escorrendo.
Ardor!
Os olhos do branco
como chicotes
ferem o mato que está gritando...
Só o água sussurrantemente calmo
corre prao mar
tal qual a alma da terra!
Francisco José Tenreiro
(«Ilha de Nome Santo»)
Monday, 21 November 2022
EXORTAÇÃO
Negro
para quem a horas são sol e febre
que colhes
nesse ritmo de guindaste.
Negro
para quem os dias são iguais
que respeitas teu patrão e senhor
como água que mexe o engenho.
Negro!
Levanta os olhos prao sol rijo
e ama a tua mulher
na terra húmida e quente!
Francisco José Tenreiro
(«Ilha de Nome Santo»)
Friday, 18 November 2022
NEGRO DE TODO O MUNDO
O som do gong
ficou gritando no ar
que o negro tinha perdido.
Harlem! Harlem!
América!
Nas ruas de Harlem
os negros trocam a vida por navalhas!
América!
Nas ruas de Harlem
o sangue de negros e de brancos
está formando xadrez.
Harlem!
Bairro negro!
Ring da vida!
Os poetas de Cabo Verde
estão cantando...
Cantando os homens
perdidos na pesca da baleia.
Cantando os homens
perdidos em aventuras da vida
espalhados por todo o mundo!
Em Lisboa?
Na América?
No Rio?
Sabe-se lá!...
- Escuta.
É a Morna...
Voz nostálgica do cabo-verdiano
chamando por seus irmãos!
Nos terrenos do fumo
os negros estão cantando.
Nos arranha-céus de New-York
os brancos macaqueando!
Nos terrenos da Virgínia
os negros estão dançando.
No show-boat do Mississipi
os brancos macaqueando!
Ah!
Nos estados do sul
os negros estão cantando!
A tua voz escurinha
está cantando
nos palcos de Paris.
Folies Bergères!
Os brancos estão pagando
o teu corpo
a litros de champagne.
Folies Bergères!
Londres-Paris-Madrid
na mala das viagens...
Só as canções longas
que estás soluçando
dizem da nossa tristeza e melancolia!
Se fosses branco
terias a pele queimada
das caldeiras dos navios
que te levam à aventura!
Se fosses branco
terias os pulmões cheios
do carvão descarregado
no cais de Liverpool!
Se fosses branco
quando jogas a vida
por um copo de whisky
terias o teu retrato no jornal!
Negro!
Na cidade da Baía
os negros
estão sacudindo os músculos.
Ui!
Na cidade da Baía
os negros
estão fazendo macumba.
Oraxilá! Oraxilá!
Cidade branca da Baía.
Trezentas e tantas igrejas!
Baía...
Negra. Bem negra!
Cidade de Pai de Santo.
Oraxilá! Oraxilá!
Francisco José Tenreiro
(«Ilha de Nome Santo»)
Tuesday, 15 November 2022
O MAR
A voz branca que está no mato
perde-se na imensidão do mar.
Lá vai!
O sol bem alto
é uma atrapalhação de cor
- Abacaxi sàfu nona
carregozinho do barco...
Um tubarão passando
é um risco de frescura.
Lá vai!
O barco deslizando
só com a vontade livre e certa do negro
lá vai!...
Francisco José Tenreiro
(«Ilha de Nome Santo»)
Sunday, 30 August 2020
FRAGMENTO DE BLUES
A Langston Hughes
Vem até mim
nesta noite de vendaval na Europa
pela voz solitária de um trompette
toda a melancolia das noites de Georgia:
oh! mamie oh! mamie
embala o teu menino
oh mamie oh! mamie
olha o mundo roubando o teu menino.
Vem até mim
ao cair da tristeza no meu coração
a tua voz de negrinha doce
quebrando-se ao som grave dum piano
tocando em Harlem:
- Oh! King Joe
King Joe
Joe Louis bateu Buddy Baer
e Harlem abriu-se num sorriso branco.
Nestas noites de vendaval na Europa
Count Basie toca para mim
e ritmos negros da América
encharcam meu coração
- ah! ritmos negros da América
encharcam meu coração!
E se ainda fico triste
Langston Hughes e Countee Cullen
vêm até mim
cantando o poema do novo dia
- ai! os negros não morrem
nem nunca morrerão!
... logo com eles quero cantar
logo com eles quero lutar
- ai! os negros não morrem
nem nunca morrerão!
Francisco José Tenreiro
(«Coração em África»)
Monday, 24 August 2020
Ritmo para a jóia daquela roça
dona de lindo nome;
tem um piano alemão
desafinando de calor.
Dona Jóia dona
do nome de Sum Roberto;
está chorando nos seus olhos
de outras terras saudades.
Dona Jóia dona
dona de tudo o que é lindo:
do oiro cacaueiro
do café de frutos vermelhos
das brisas da nossa ilha.
Dona Jóia dona
dona de tudo o que é triste:
meninos de barriga oca
chupando em peitos chatos;
negros de pèsão grande
trabalhando pelos matos.
Ai! Dona Jóia dona,
dona de mim também -
Jesus, Maria, José
Credo! -
não me olhe assim-sim
que me pára o coração!
Francisco José Tenreiro
Friday, 21 August 2020
VINHO DE PALMA
- Vinho de palma é fruto?
- Claro: vinho de palma é fruto.
É filho de árvore
é entrega de árvore
é amor que escorre de árvore.
- Vinho de palma é fruto?
- Vinho de palma é mêmo fruto.
É filho de árvore para sede matar
é entrega de árvore ao homem
é amor que escorre de árvore para amar.
Vinho de palma é fruto?
Eu acho sim-sim
Vinho de palma é mêmo fruto para amar!
Francisco José Tenreiro
Tuesday, 18 August 2020
MAMÃO TAMBÉM PAPAIA
também papaia.
Que sabor é o teu mamão
também papaia
que andas na boca dos pobres
e és delícia matinal
do Senhor Administrador?
Qual a tua sedução
mamão também papaia?
Será esse teu ar estranho
de seres melão e nasceres nas árvores
ou esse rosto da mama de mulher preta
recordando ao Senhor Administrador aquela
cujo seio se abriu em filhos mulatos
brincando pelas traseiras da Casa Grande?
Que força é a tua
mamão também papaia?
Será porque alivias o rotundo ventre
do Senhor Administrador
e soltando a barriga do Senhor Administrador
libertas a neura e o sorriso
do Senhor Administrador
deixando-o mais macio e de olhos parados
para o dia de sol e quentura do Senhor?
Oh! mamão também papaia
na boca de pobres e de ricos
de pretos de brancos e de mulatos
fruto democrático da minha ilha!
Francisco José Tenreiro
Saturday, 15 August 2020
O OSSOBÓ CANTOU
A cavalo do vento
a chuva chegou.
A chuva chegou
e o ossobó cantou.
Cantou o ossobó
seu canto molhado.
«Tchuva já vêo?
Já vêo si siô»
Já veio a chuva, Dêçu mum
e é um estoirar de amor pelas grotas.
Té o ribeirão seco como mulher vazia
se abriu gostosamente ao ribeirinho entumecente.
As águas levam carícias de mãos.
Sob a folhagem amodorra a cobra preta
enquanto o potro e menino do engenho
brincam e correm no terreiro os corpos molhados
do canto bonito do ossobó.
Já vêo a chuva?
Já vêo si siô.
Não vêo não siô.
Ah! Já vêo que ossobó cantou!
A preta do meu amor pariu,
pariu, meu Deus!, porque o ossobó cantou!
Francisco José Tenreiro
Wednesday, 12 August 2020
CORPO MORENO
tem o ritmo da cobra preta deslizando
mentia.
Mentia se comparasse o teu rosto fruto
ao das estátuas adormecidas das velhas civilizações de África
de olhos rasgados em sonhos de luar
e boca em segredos de amor.
Como a minha Ilha é o teu corpo mulato
tronco forte que dá
amorosamente ramos, folhas, flores e frutos
e há frutos na geografia do teu corpo.
Teu rosto de fruto
olhos oblíquos de safís
boca fresca de framboesa silvestre
és tu.
És tu minha Ilha e minha África
forte e desdenhosa dos que te falam à volta.
Francisco José Tenreiro
Sunday, 9 August 2020
DIA AZIAGO
1
Sexta-feira 13
No Black Belt um negro mais
foi linchado.
Sexta-feira 13
O canto da morte cresce
nos olhos rasgados dos coreanos.
Sexta-feira 13
A psitacose ganhou a política
e Paul Reynaud formará governo.
Sexta-feira 13
Shang é o amarelo poeta
pelos Yankees encadernado.
Sexta-feira 13
As paredes e os muros sem hera
vestem-se de brincar às eleições.
Sexta-feira 13
Tudo é silêncio além cortina:
grave silêncio de quem
planeia cinco anos de felicidade.
Sexta-feira 13
Seu Getúlio era fascista
quaisquer dia, Senhor do Bonfim
té parece comunista.
Sexta-feira 13
Vem ou não vem
o empréstimo americano?
Sexta-feira 13
em toda a Terra
Sexta-feira 13
depois de Cristo.
2
Vêm dias e noites de Sexta-feira 13 carregados de infortúnios
e de revoluções siderais de tempos antigos
de magias e ritos que os rios dos séculos não escoaram
para mares de compreensão e antes
levaram a lagoas com cabeleiras de limos da estagnação mental;
vieram um após outro 54 cavalos que foram como 54
brasidos de lama e fogo
de vulcões convulsos que escarraram sobre nós as vergonhas
e os opróbrios de 19 séculos passados
de 19 estradas obtusas de 19 becos de soluções que desafiaram
as agulhas magnéticas
de 19 milhões de milhões de lutas mesquinhas e pessoais;
19 caminhos de piteiras que levaram ao amanhecer cadavérico
de Sexta-feira 13.
Que o homem se fez a si próprio - fez-se muito mal.
Que o homem inventou as pirâmides - para nada serviram.
Que de Nabucodonozor uma biblioteca houve - ninguém a leu.
Que os romanos deram ao mundo a linguagem da justiça - também deram as galé.
Que os árabes trouxeram a água em odres de sangue - o corpo da terra finou-se de secura.
Que o homem desafiou os mares e o céu dos pássaros - e ninguém ganhou asas:
Ninguém, ninguém ganhou asas
em Sexta-feira 13.
3
(Há um riso de manicómio racionado
poluindo as fontes frescas e os vales
embaciando os olhos vivos da noite
murchando o tenro das folhas verdes
e as vergonhas cerradinhas das virgens...
em Sexta-feira 13.)
Só a criança que nasceu sem pai
abriu a garganta ao mundo para chorar
- não o choro fininho de quem
agradece à vida a luz dos olhos -.
Só os homens das estepes ressequidas ou geladas
e os que nas selvas vivem como macacos
caçaram, beberam, fornicaram
na doce ilusão dos que amam
entregues ao Sol, à água e ao fogo
- Cantaram
inocentes de Sexta-feira 13!
Francisco José Tenreiro
(«Coração em África»)
Thursday, 6 August 2020
CORAÇÃO EM ÁFRICA
(1)Caminhos trilhados na Europa
de coração em África.
Saudades longas das palmeiras vermelhas verdes amarelas
tons fortes da paleta cubista
que o Sol sensual pintou na paisagem;
saudade sentida de coração em África
ao atravessar estes campos do trigo sem bocas
das ruas sem alegria com casas cariadas
pela metralha míope da Europa e da América
da Europa trilhada por mim Negro de coração em África.
De coração em África na simples leitura dominical
dos periódicos cantando na voz ainda escaldante da tinta
e com as dedadas de miséria dos ardinas das cities boulevards e baixas da Europa
trilhada por mim Negro e por ti ardina
cantando dizia eu em sua voz de letras as melancolias do orçamento que não equilibra
do Benfica venceu o Sporting ou não
ou antes ou talvez seja que desta vez vai haver guerra
para que nasçam flores roxas de paz
com fitas de veludo e caixões de pinho;
oh as longas páginas do jornal do mundo
são folhas enegrecidas de macabro blue
com mourarias de facas e guernicas de toureiros.
(2)Em três linhas (sentidas saudades de África) -
Mac Gee cidadão da América e da democracia
Mac Gee cidadão Negro e da negritude
Mac Gee cidadão Negro da América e do Mundo Negro
Mac Gee fulminado pelo coração endurecido feito cadeira eléctrica
(do cadáver queimado de Mac Gee do seu coração em África e sempre vivo
floriram flores vermelhas flores vermelhas flores vermelhas
e também azuis e também verdes e também amarelas
na gama polícroma da verdade do Negro
da inocência de Mac Gee) -
três linhas no jornal como um falso cartão de pêsames.
Caminhos trilhados na Europa
de coração em África.
De coração em África com o grito seiva bruta dos poemas de Guillén
de coração em África com a impetuosidade viril do I too am América
de coração em África coms as árvores renascidas em todas as estações
nos belos poemas de Diop
de coração em África nos rios antigos que o Negro conheceu
e no mistério de Chaka-Senghor
de coração em África contigo amigo Joaquim quando em versos incendiários
cantaste a África distante do Congo da minha saudade
do Congo de coração em África.
De coração em África ao meio-dia do dia de coração em África
com o Sol sentado nas delícias do zénite
reduzindo a pontos as sombras dos Negors
amodorrando no próprio calor da reverberação
os mosquitos da nocturna picadela.
(3)
De coração em África em noites de vigília escutando o olho mágico do rádio
e a rouquidão sentimento das inarmonias de Armstrong.
De coração em África em todas as poesias gregárias ou escolares que zombam
e zumbem sob as folhas de couve da indiferença
mas que têm a beleza das rodas de crianças com papagaios garridos
e jogos de galinha branca vai até França
que cantam as volutas dos seiso e das coxas das negras e mulatas
de olhos rubros como carvões verdes acesos.
De coração em África trilho estas ruas nevoentas da cidade
de África «no coração e um ritmo de be bop be nos lábios
enquanto que à minha volta se sussurra
olha o preto (que bom) olha um negro (óptimo)
olha um mulato (tanto faz) olha um moreno (ridículo)
e procuro no horizonte cerrado da beira-mar
cheio de maresias distantes de areias distantes
com silhuetas de coqueiros conversando baixinho à brisa da tarde.
(4)De coração em África na mão deste Negro enrodilhado e sujo de beira-cais
vendendo cautelas com a incisão do caminho da cubata
perdida na carapinha alvinitente;
de coração em África com as mãos e os pés trambolhos disformes
e deformados como os quadros de Portinari dos estivadores do mar
e dos meninos ranhosos viciados pelas olheiras fundas das fomes de Pomar,
vou cogitando na pretidão do mundo que ultrapassa a própria cor da pele
dos homens brancos amarelos negros ou às riscas
e o coração entristece à beira-mar da Europa
da Europa por mim trilhada de coração em África;
e chora fino na arritmia de um relógio cuja corda vai estalar
soluça a indignação que fez os homens escravos dos homens
mulheres escravas dos homens crianças escravas dos homens
negros escravos dos homens
amarelos e brancos e brancos e amarelos e negros escravos
sempre dos homens
e também aqueles de que ninguém fala e eu Negro não esqueço
como os pueblos os xavantes os esquimós os aínos eu sei lá
que são tantos e todos escravos entre si.
(5)
Chora coração meu estala coração meu enternece-te meu coração
de uma só vez (oh órgão feminino do homem)
de uma só vez para que possa pensar contigo em África
na esperança de que para o ano vem a monção torrencial
que alagará os campos ressequidos pela amargura da metralha
e adubados pela cal dos ossos de Taszlitzki
na esperança de que o Sol há-de prenhar as espigas de trigo
para os meninos viciados
e levará milho às cabanas destelhadas do último rincão da Terra
distribuirá o pão o vinho e o azeite pelos alísios;
na esperança de que às entranhas hiantes de um menino antípoda
haja sempre uma túlipa de leite ou uma vaca de queijo
que lhe mitigue a sede de existência.
Deixa-me coração louco
deixa-me acreditar no grito de esperança lançado pela paleta viva de Rivera
e pelos oceanos de ciclones frescos das odes de Neruda;
deixa-me acreditar que do desespero másculo de Picasso
sairão pombas
que como nuvens voarão os céus do mundo de coração em África.
Francisco José Tenreiro
Friday, 12 June 2020
ROMANCE DE SEU SILVA COSTA
«Seu Silva Costa
chegou na ilha...»
Seu Silva Costa
chegou na ilha:
calcinha no fiozinho
dois moeda de ilusão
e vontade de voltar.
Seu Silva Costa
chegou na ilha:
fez comércio di álcool
fez comércio di homem
fez comércio di terra.
Ui!
Seu Silva Costa
virou branco grande:
su calça não é fiozinho
e sus moedas não têm mais ilusão!...
Francisco José Tenreiro
Tuesday, 9 June 2020
ROMANCE DE SAM MÀRINHA
Sam Màrinha
a que menina foi no norte
chegou naquele navio à ilha.
Risadas brancas
e goles de champanhe!
À hora do espalmadoiro
os moços do comércio
passaram de gravatas garridas.
O monhé chegou na porta
e limpou o suor
ao lenço di seda que importou do Japão!
Ai!
Aquela que chegou na ilha
como uma risada branca
está fechando a carinha à terra.
Braços pendentemente tristes
só os olhinhos
estão pulando pra lá da fortaleza
querendo ver a Europa!...
Francisco José Tenreiro
Sunday, 24 January 2016
Canção do mestiço
Nasci do negro e do branco
e quem olhar para mim
é como se olhasse
para um tabuleiro de xadrez:
a vista passando depressa
fica baralhando côr
no olho alumbrado de quem me vê.
Mestiço!
E tenho no peito uma alma grande
uma alma feita de adição
como 1 e 1 são 2.
Foi por isso que um dia
o branco cheio de raiva
contou os dedos das mãos
fez uma tabuada e falou grosso:
- mestiço!
a tua conta está errada.
Teu lugar é ao pé do negro.
Ah!
Mas eu não me danei...
e muito calminho
arrepanhei o meu cabelo para trás
fiz saltar fumo do meu cigarro
cantei do alto
a minha gargalhada livre
que encheu o branco de calor!...
Mestiço!
Quando amo a branca
sou branco...
Quando amo a negra
sou negro
Pois é...
Francisco José Tenreiro
(in Ilha de Nome Santo)
Tuesday, 21 June 2011
ROMANCE DE SINHÁ CARLOTA
Na beira do caminho
sinhá Carlota
está pitando no seu cachimbo.
Um círculo da cuspo
a seu lado...
Veio do sul
numa leva de contratados.
Teve filhos negros
que trocam hoje o peixe
por cachaça.
Teve filhos mestiços.
Uns
forros de a. b. c.
perdidos em rixas de navalhas.
Outros foram no norte
com seus pais brancos
e o seu coração
já não lembra o rostinho deles!
Sinhá Carlota
veio há muito do sul
numa leva de contratados.
Assim
embora pra seu branco
o seu corpo não baila mais no sòcòpé
ele ao passar
fica sempre dizendo:
sàbuá?
Sinhá Carlota
nos seus olhos cansados e vermelhos
solta um achô distante
enquanto vai pitando
no seu cachimbo carcomido...
Francisco José Tenreiro
Thursday, 30 December 2010
ABRAHAM LINCOLN
levantaram braços esguios ao céu
e crianças balbuciaram espirituais;
E um rachador de lenha
suspendeu o machado no ar
e quis viver seus cantos de amargura:
Lincoln os brancos o chamaram;
Abraham os negros disseram!
Francisco José Tenreiro
(«Coração em África»)