Showing posts with label Daniel Filipe. Show all posts
Showing posts with label Daniel Filipe. Show all posts

Wednesday, 27 October 2021

Poema

Neste ano de 1962
primeiro de Maio
ao começo da noite
podemos finalmente olhar no espelho a nossa imagem
sem temor nem vergonha

Na solidão do quarto meu Amor
podemos pela primeira vez
deixar de recear futuros julgamentos
e as perguntas silenciosas nos olhos dos vindouros
esquecer a humilhação o insulto sem resposta
que foi o nosso pão quotidiano e áspero

Agora podemos ser de novo homens
livres ainda que presos
mastigando a comida sem o sabor a lágrimas
antes com o sal da esperança
merecido tempero paga justa da luta

Renegamos o passado maculado de angústias
esquecemos as pequenas diárias covardias
os negócios onde tudo se perde e até a honra

Neste primeiro de Maio de 1962
podemos finalmente sorrir sem amargura

Daniel Filipe
(«Pátria, lugar de exílio»)

Wednesday, 18 March 2015

4ª CANÇÃO


Roga por nós, ó pátria, ó sonho sem fronteira!,
por nós a quem recusam a alegria,
a liberdade, o pão de cada dia,
a vida verdadeira!


Ó pátria, canta! Do teu presepe imaginário
ergue a voz dulcíssima, magoada,
e estilhaça de esperança as paredes do aquário,
ó pacifica pomba engaiolada!

Contigo iremos pela noite fora,
cantando «Erguendo rútilas bandeiras
por sobre aldeias, campos, sementeiras,
como os arcanjos portadores da aurora».

Daniel Filipe

Friday, 3 May 2013

CANTO E LAMENTAÇÃO NA CIDADE OCUPADA


6.

Pelo silêncio na planície pela tranquilidade em tua voz
pelos teus olhos verdes estelares pelo teu corpo líquido de bruma
pelo direito de seguir de mãos dadas na solidão nocturna
lutaremos meu Amor

Pela infância que fomos pelo jardim escondido que não teve
o nosso amor
pelo pão que nos recusam pela liberdade sem fronteiras
pelas manhãs de sol sem mácula de grades
lutaremos meu Amor

Pela dádiva mútua da nossa carne mártir
pela alegria em teu sorriso claro pelo teu sonho imaterial
pela cidade escravizada pela doçura de um beijo à despedida
lutaremos meu Amor

Pelos meninos tristes suburbanos
contra o peso da angústia contra o medo
contra a seta de fogo traiçoeira cravada
em nosso coração aberto
lutaremos meu Amor

Na aparência sózinhos multidão na verdade
lutaremos meu Amor

Daniel Filipe
(in A Invenção do Amor e outros poemas)

Wednesday, 1 May 2013

MAL-ME-QUER, BEM-ME-QUER


Falemos, pois, de amor: serenamente.
A esfinge que nós somos, adormece cansada
e a criança de um dia olha-nos, frente a frente.

(Muito, pouco, nada).

Daniel Filipe
(in Pátria, lugar de exílio)