Camarada poeta: se puderes
pega na palavra e não te cales
mais. Digo que não esperes,
para cantar, o tempo da colheita.
Agora a fome é tanta
que a palavra pão também se come.
Quem diz pão diz fome e a fome de a não ter não é sobeja.
Digo que a palavra seara faz crescer
o grão da raiva de a não ter.
Digo que a palavra fonte faz jorrar
rios de sede até ao mar.
A palavra trabalho, a palavra suor,
a palavra amiga, a palavra amor.
A palavra precisa, de vendaval ou brisa:
a que denuncia, a que profetiza.
Digo que a palavra que disseres
se pode desfolhar como os malmequeres:
ou muito ou pouco ou tudo ou nada.
O que não pode é ficar calada.
Carlos Aboim Inglês
Showing posts with label Carlos Aboim Inglês. Show all posts
Showing posts with label Carlos Aboim Inglês. Show all posts
Friday, 27 October 2017
Friday, 18 July 2014
Ponho o acento mais grave na palavra Esperança
o acento mais grave ponho-o na palavra Esperança
escutai toda a extensão de caminho que ela traz consigo:
mas dos pés quotidianos não limpem a lama dos dias quanta
[houver e há tanta
nem tapem a boca ao tumulto os punhos nos ouvidos feitos
[surdos
ao coração - esse podem deixá-lo pesado se o estiver e como
mas espantem o sono dos olhos já pisados de sonho por demais
e cuspam fora o sarro do tédio o não importa o é sabido e basta
em cada palavra um grito em cada grito a vida - esse é
[o estrume
desta flor íntima e pública que vos digo e não é fácil
não é fácil que a flor brota da aspereza e do nojo
e da fome e da sede dos seios secos e dos ventres grávidos
e dos olhos enxutos e das pedras em pranto
ah! quanto suor trabalhoso e quanto mais se exige
Escutai toda a extensão de caminho que ela traz consigo:
Desdobra-se o passo caiem horizontes e tão só desponta
Nesta noite de amargura e séculos
Com o rosto sereno dos mortos que sabiam
E das crianças nascendo que saberão um dia
O quanto ele custa - sangue azul de angústia
O quanto ele vale - nosso pão plural
não não é fácil a flor das raízes aos ramos a seiva sem
[enganos
a vida que vem de traz e continua
nos pés que se movem inexoravelmente
para a Manhã que vem vindo porque vamos
- em cada palavra um passo em cada passo a vida:
ponho o acento mais grave na palavra Esperança!
Carlos Aboim Inglês
Friday, 30 August 2013
UMA GOTA NO CAUDAL
Sozinhos, que somos nós?
Gota de água diminuta
sumida da terra enxuta.
Nem a sede de uma boca
pode assim ser saciada,
porque sós não somos nada,
nem fonte de nenhum rio,
nem onda do mar ou espuma,
maré de coisa nenhuma.
Gota a gota a terra bebe,
rompe o ventre e verte um fio,
cresce a fonte e faz-se rio.
Quantas rotas tem o mar?
Quantas vagas a maré?
Quem as conta perde o pé.
Gota a gota. Cada é pouca.
Mas se a vida é una e vária
cada gota é necessária.
Mesmo sós sejamos sempre
uma gota no caudal,
diminuta, fraternal.
Carlos Aboim Inglês
Monday, 18 July 2011
Destino
A ser cão,
antes vagabundo
sem pão,
passadas firmadas,
lés a lés,
no mundo
a meus pés.
Carlos Aboim Inglez
Tuesday, 12 October 2010
Um homem só no segredo
Um homem só no segredo
sabe um segredo profundo:
nunca está só nem tem medo
quem ama os homens e o mundo.
Carlos Aboim Inglês
(Poema escrito com um prego na parede de um segredo
das casamatas de Caxias, em Dezembro de 1959)
Subscribe to:
Posts (Atom)