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Friday, 27 October 2017

NÃO ESPERES O TEMPO

Camarada poeta: se puderes
pega na palavra e não te cales
mais. Digo que não esperes,
para cantar, o tempo da colheita.

Agora a fome é tanta
que a palavra pão também se come.
Quem diz pão diz fome e a fome de a não ter não é sobeja.

Digo que a palavra seara faz crescer
o grão da raiva de a não ter.
Digo que a palavra fonte faz jorrar
rios de sede até ao mar.

A palavra trabalho, a palavra suor,
a palavra amiga, a palavra amor.
A palavra precisa, de vendaval ou brisa:
a que denuncia, a que profetiza.

Digo que a palavra que disseres
se pode desfolhar como os malmequeres:
ou muito ou pouco ou tudo ou nada.
O que não pode é ficar calada.

Carlos Aboim Inglês

Friday, 18 July 2014

Ponho o acento mais grave na palavra Esperança


o acento mais grave ponho-o na palavra Esperança
escutai toda a extensão de caminho que ela traz consigo:
mas dos pés quotidianos não limpem a lama dos dias quanta
[houver e há tanta
nem tapem a boca ao tumulto os punhos nos ouvidos feitos
[surdos
ao coração - esse podem deixá-lo pesado se o estiver e como
mas espantem o sono dos olhos já pisados de sonho por demais
e cuspam fora o sarro do tédio o não importa o é sabido e basta
em cada palavra um grito em cada grito a vida - esse é
[o estrume

desta flor íntima e pública que vos digo e não é fácil
não é fácil que a flor brota da aspereza e do nojo
e da fome e da sede dos seios secos e dos ventres grávidos
e dos olhos enxutos e das pedras em pranto
ah! quanto suor trabalhoso e quanto mais se exige
Escutai toda a extensão de caminho que ela traz consigo:
Desdobra-se o passo caiem horizontes e tão só desponta
Nesta noite de amargura e séculos
Com o rosto sereno dos mortos que sabiam
E das crianças nascendo que saberão um dia
O quanto ele custa - sangue azul de angústia
O quanto ele vale - nosso pão plural

não não é fácil a flor das raízes aos ramos a seiva sem
[enganos
a vida que vem de traz e continua
nos pés que se movem inexoravelmente
para a Manhã que vem vindo porque vamos
- em cada palavra um passo em cada passo a vida:
ponho o acento mais grave na palavra Esperança!


Carlos Aboim Inglês

Friday, 30 August 2013

UMA GOTA NO CAUDAL


Sozinhos, que somos nós?
Gota de água diminuta
sumida da terra enxuta.
Nem a sede de uma boca
pode assim ser saciada,
porque sós não somos nada,
nem fonte de nenhum rio,
nem onda do mar ou espuma,
maré de coisa nenhuma.

Gota a gota a terra bebe,
rompe o ventre e verte um fio,
cresce a fonte e faz-se rio.
Quantas rotas tem o mar?
Quantas vagas a maré?
Quem as conta perde o pé.
Gota a gota. Cada é pouca.
Mas se a vida é una e vária
cada gota é necessária.

Mesmo sós sejamos sempre
uma gota no caudal,
diminuta, fraternal.

Carlos Aboim Inglês

Monday, 18 July 2011

Destino


A ser cão,
antes vagabundo
sem pão,
passadas firmadas,
lés a lés,
no mundo
a meus pés.


Carlos Aboim Inglez

Tuesday, 12 October 2010

Um homem só no segredo


Um homem só no segredo
sabe um segredo profundo:
nunca está só nem tem medo
quem ama os homens e o mundo.

Carlos Aboim Inglês
(Poema escrito com um prego na parede de um segredo 
das casamatas de Caxias, em Dezembro de 1959)