Monday, 30 December 2024

- areia -

 
a vida é feita do mesmo que a areia,
grão a grão, escapa-se-nos por entre os dedos,
por mais que a apertemos.

Miguel Tiago

Friday, 27 December 2024

- sem título -

 
nenhum ser humano é vazio,
somos é todos cheios de coisas diferentes.

Miguel Tiago

Tuesday, 24 December 2024

verso fractal

 
ao contrário do universo,
este verso é infinito.

Miguel Tiago

Saturday, 21 December 2024

- sem título -

 
soltam-se-me dos dedos
as sílabas
como lágrimas dos olhos
de quem chora.

Miguel Tiago

Thursday, 19 December 2024

O poema pouco original do medo

 
O medo vai ter tudo
pernas
ambulâncias
e o luxo blindado
de alguns automóveis
Vai ter olhos onde ninguém os veja
mãozinhas cautelosas
enredos quase inocentes
ouvidos não só nas paredes
mas também no chão
no tecto
no murmúrio dos esgotos
e talvez até (cautela!)
ouvidos nos teus ouvidos
O medo vai ter tudo
fantasmas na ópera
sessões contínuas de espiritismo
milagres
cortejos
frases corajosas
meninas exemplares
seguras casas de penhor
maliciosas casas de passe
conferências várias
congressos muitos
óptimos empregos
poemas originais
e poemas como este
projectos altamente porcos
heróis
(o medo vai ter heróis!)
costureiras reais e irreais
operários
(assim assim)
escriturários
(muitos)
intelectuais
(o que se sabe)
a tua voz talvez
talvez a minha
com certeza a deles
Vai ter capitais
países
suspeitas como toda a gente
muitíssimos amigos
beijos
namorados esverdeados
amantes silenciosos
ardentes
e angustiados
Ah o medo vai ter tudo
tudo
(Penso no que o medo vai ter
e tenho medo
que é justamente
o que o medo quer)
*
O medo vai ter tudo
quase tudo
e cada um por seu caminho
havemos todos de chegar
quase todos
a ratos
Sim
a ratos
Alexandre O'Neill,
in "Abandono Viciado"


Graça Morais - A idade do medo

Wednesday, 18 December 2024

fado

 
do fado o que sei
quando ecoa
nas travessas e vielas,
nos bairros de Lisboa?

do fado o que sei
- nada sei .
além dessa voz que me acende?

e dessa guitarra que dedilha
versos no escuro?

do fado apenas sei que,
na tua voz e nesses versos,
ouço a cantiga do meu povo.

(que em Lisboa
se entoa.)

Miguel Tiago

Sunday, 15 December 2024

Wiriyamu


16 de dezembro de 1972 teve lugar um dos episódios mais tenebrosos do colonialismo português, conhecido como “Massacre de Wiriyamu”. Uma operação, com o nome de código “Marosca”, que envolveu aviação, elementos dos comandos e agentes da PIDE/DGS, decorreu na zona de Tete, no Norte de Moçambique, visando cinco aldeias: Wiriyamu, Juwau, Djemusse, Riacho e Chaworha.

Depois de lançadas bombas sobre a aldeia de Wiriyamu, entraram em ação os militares dos Comandos e seguiu-se a barbárie. O morticínio estender-se-ia às referidas quatro povoações ao longo do rio Zambeze sob variadas e desumanas formas. Centenas de pessoas são chacinadas, entre elas mulheres e crianças. Muitas são fechadas dentro das cubatas onde morrem carbonizadas por ação de granadas incendiárias, outras são simplesmente fuziladas. Soldados destroem palhotas, infraestruturas e aldeias, saqueiam bens, abrem fogo sobre pessoas cujos corpos são depois colocados, com alguns vivos pelo meio, em piras funerárias para serem consumidos pelo fogo.

385 pessoas terão morrido, cerca de um terço dos 1350 habitantes das cinco aldeias. A listagem das vítimas e o relato dos acontecimentos são apurados por Domingo Kansande e pelo padre Domingos Ferrão que faz chegar as informações a padres espanhóis e holandeses. O massacre seria divulgado pelo também padre inglês Adrian Hastings no jornal britânico “The Times”, a 10 de julho de 1973, dias antes da visita de Marcelo Caetano a Londres. O caso chegaria ainda à Organização das Nações Unidas.

Oficialmente, Portugal nunca assumiu o sucedido neste episódio que, o Museu do Aljube Resistência e Liberdade recorda, evocando as vítimas.

📷 Documento presente no Centro de Documentação do @museudoaljube, 16.12.72 | BMRR – Biblioteca-Museu República e Resistência