Monday, 30 January 2023

o quarto estado

 
era preciso que chegasse alguém
arrombasse as portas
acendesse a luz
ou na escuridão riscasse um fósforo à moda antiga
alguém que viesse de chapéu ou boina ou fuzil
alguém que trouxesse vestidos os séculos num lenço ao pescoço
a aspereza dos condenados da terra nas mãos
e o sorriso das crianças ainda nos olhos
alguém que viesse a cantar em torno de uma fogueira
era preciso que chegasse alguém
que tivesse ardido numa pira
que tivesse sido executado amarrado ou de punho levantado
que fosse uma mulher de filho ao peito
ou de mão à ilharga
alguém que já tivesse pintado um quadro
ou que tivesse sido caçado como um escravo
por um cão no meio do algodão
alguém que já tivesse mesmo mesmo respirado
ar parado
era preciso que chegasse alguém
alguém que viesse na linha da frente de peito cheio
ou alguém que viesse atrás amedrontado,
mas que viesse.
era preciso que chegasse alguém
que derrubasse mentiras com os punhos
e construísse verdades com o olhar
que viesse na máquina do tempo
movida a energia nuclear ou a carvão.
era preciso que chegasse a voar
nas asas da rebelião.

era preciso que chegasse alguém
desses que todos os dias chegam
e desde sempre cá estão.
 
Miguel Tiago

Friday, 27 January 2023

sem título

o principal problema da verdade
é ser intransponível e sermos-lhe inescapáveis
é vir como um cometa daqueles que não são profecia
abater-se sobre o frágil corpo dos homens.
é assim uma música que nunca se esquece
da qual não sabemos se somos ouvintes ou acordes.

Miguel Tiago

Tuesday, 24 January 2023

poerotismo

 
entrar em ti como uma inundação
e ouvir o mais belo som do mundo
aquele de prender-se-te uma nuvem na garganta.
 
Miguel Tiago

Saturday, 21 January 2023

sem título

não acredito em karma
mas lá que é fodido, é.
 
Miguel Tiago

Wednesday, 18 January 2023

NENHUM PRÉMIO, POR MAIOR...


Nenhum prémio, por maior,
vale as dores da liberdade.
Siga o seu próprio pendor
quem de segui-lo se agrade.
Ninguém chore um bem perdido.
Há muitos bens por achar.
Sonhos ocos de sentido
porque havemos de os sonhar?
A liberdade não é
de se dar, mas de tomar-se.
Liberdade que se dê
é apenas um disfarce.

Armindo Rodrigues

Sunday, 15 January 2023

dar e receber

 
tinhas na ponta da língua as minhas galáxias
e depois beijaste-me.
 
Miguel Tiago

Thursday, 12 January 2023

sem título

não rodopiaste como nos filmes, mas houve alguma câmara lenta
os teus olhos semicerrados anunciavam o suor da noite se o abraço fosse acolhido
contaste-me a tua vida num jantar com vista para o tejo já anoitecido sob a sombra do adamastor
esperei na travessa vezes sem conta como quem espera as pétalas a cair no jardim imperial de tóquio
um buraco no peito uma alma cheia um beijo sempre nos lábios 
"o galo já não canta mais no canta galo..."
soava de manhã numa voz doce
e o café passado enchia as ruas todas da tua casa
escrevi-te uma carta mesmo à mão 
que seguiu pelo correio e não vi a tua cara quando a leste
mas fui feliz quando soube que chegara ao alto do bairro 
não andámos de bicicleta mas fiz uma viagem pelos andes 
e vi cholitas e vi o mapa da felicidade em manchinhas desenhadas no teu rosto
e vi o alto do atlas
e o açaí nas mãos dos putos trepando nas árvores
o meu coração nunca exercitou tanto 
não importa a trip, não importa a festa 
não importa o destino, mas a viagem
fui ao zêzere e voltei pelo rio abaixo numa laranja
esperei vezes sem conta na travessa
sentei nos canários em expectativa enquanto debulhava amendoins sagres e cigarros
assaltei fortificações que tinha cá dentro
e entrei nelas de mãos dadas
conheci-te e troquei um autoclismo em tua casa, despedi-me de ti e troquei um na nossa.
estranha estória que parece um retorno mas não é.
nem um minuto a menos, disso a certeza.
 
Miguel Tiago