Wednesday, 30 September 2020
Guerrilheiros torturados pelos esbirros de Hitler na planície dos lobos.
Amarraram-no a uma árvore
florida de vermelho...
(Que lhe falta para cruz?)
Rasgaram-lhe as carnes
com chicotes de unhas...
(Até já tem chagas.)
Sangraram-lhe a fronte
com arame farpado...
(... e coroa de espinhos.)
E agora vai morrer
na planície dos lobos...
(Nem lhe falta o Calvário.)
Mas não é um Deus, ouviram?
É um homem
que vai morrer pelos outros homens
sem ressurreição nem céu.
Um homem apenas
sem a alegria dum destino na Morte.
Um homem apenas
com um Momento Terrível
de suor e nuvens.
Um homem apenas
com deuses fuzilados nos olhos.
José Gomes Ferreira
Monday, 28 September 2020
Sunday, 27 September 2020
peça para uma criança que não morre
do canto da escuridão, uma criança surge correndo, com uma
certa pressa como se fugisse de alguém. a cor do seu vestido quase não
se distingue do fundo negro, mas vemos do seu rosto um olhar de quem
corre fugindo mas sem medo. não a apanharão, pensará ela enquanto corre,
percorrendo o vazio escuro de um palco. atravessa-o e mesmo junto a nós
vem, algo apressada, plantar uma pequena flor vermelha num montinho de
terra feito à pressa com a que estava à mão. erguida do chão a pequena
flor, a criança, olha em redor, passa o pé de roda da terra para a
calcar e dar segurança às ainda frágeis raízes, e deixamos rapidamente
de a ver.
dois homens surgem no escuro, com uma luz forte a
iluminar-lhes o caminho. espingarda às costas, olham a flor,
entreolham-se pouco tempo porque, como para autómatos, a existência do
outro é um facto estranho, ao qual toda a importância dada é demasiada.
já muito perto da flor, apontam-lhe as espingardas. um deles, ante a
resistência inusitada da flor à voz de prisão e de joelhos no chão, mãos
na cabeça, arranca-a do chão sem piedade, tira-lhe duas pétalas para
análise posterior em laboratório e deixa abandonado o cadáver que ora
jaz pelo monte de terra desfeito.
tudo é escuridão. os homens diluem-se nela. uma fresta de
luz rente ao chão vem do nascente e ouvem-se os passos mais apressados
de uma criança. vem com o mesmo vestido, porém mais apressada, a
respiração mais difícil, os passos mais trementes. nas mãos traz uma
flor e desajeitada mas cuidadosa, volta ao mesmo local, arranja de novo a
terra, ergue de novo a flor, olha em redor, calca a terra, some no
escuro.
dois homens surgem destacando-se do escuro. como é possível
que a flor tenha de novo surgido? talvez tenha deitado sementes, talvez
sejam necessárias medidas mais duras, uma pulverização do terreno com
herbicidas, uma praga de gafanhotos, uma vigilância constante, quem sabe
mesmo videovigilância. tudo ideias que podem e devem discutir e tudo
ideias que tentaram. a flor morreu e tornou a surgir pelas mãos de uma
criança que, sob as câmaras de vigiância ou o olhar mais atento das
espingardas, sabia sempre como ali a levantar do chão que parecia
estéril.
estéril não era. e a flor tornava, por vezes apenas por
alguns minutos, a erguer-se na escuridão procurando o sol de que vivia.
ou chamando o sol que a fazia viver.
certo dia, os homens construíram toda uma igreja, com
sacerdotes e templos. era muito importante que ninguém se aproximasse da
flor que teimava em nascer. era muito importante não a querer ver, não a
querer cheirar. anos a fio e gerações atrás de gerações viveram
aterrorizadas pela simples ideia de que fosse possível cheirar uma flor.
e no entanto, era uma criança quem teimava em resistir às ordens.
adiante, no fundo do escuro, uma projecção mostra como a
comunicação social se empenha em dizer que a flor é má. que aliás, todas
as flores são más, não só as vermelhas. todas, de todas as cores, é
preciso acabar com elas. e se porventura no teu quintal a chuva trouxer
uma qualquer flor, nem que seja daninha e espontânea, é teu dever
arrancá-la do chão sem piedade e incinerá-la até que não reste qualquer
cor.
a polícia secreta foi ao local, trocou impressões, recolheu
provas. a igreja mandou muitos homens estudar o fenómeno para saberem
como escrever livros com as mentiras certas. a alta hierarquia da igreja
sugeriu finalmente que se fizesse de betão o chão onde as flores
teimavam em brotar. que nenhuma flor romperia o betão sólido. assim se
fez.
durante anos o betão não fendeu.
a chuva, o oxigénio e o sol, todavia, que alimentam e
fortalecem flores, venceram a batalha e o betão, anos depois, viu
abrir-se-lhe uma pequeníssima fenda, imperceptível para as autoridades
do estado e da igreja. o suficiente para que a criança, logo surgisse de
novo com uma flor na mão e enchesse com um punhado de terra a fenda
minúscula. a flor nasceu no meio do betão. a criança, contudo, não
escapou e foi capturada poucos minutos depois.
com as espingardas apontadas, e os dedos acusatórios da
igreja sancionando a morte como forma única de expiação, a criança
ajoelhou, ergueu os olhos, com serenidade e confiança. nenhuma arma
disparou, ninguém mais exigiu o que fosse. porque a criança era afinal
todos nós e o seu rosto um espelho onde se reflectiam todos os rostos da
plateia.
a flor, ao canto, permaneceu.
Miguel Tiago
Miguel Tiago
Thursday, 24 September 2020
HORA H
A Primavera cheira a laranjas.
(Há umas granadas de mão, redondas e pequenas, a que chamam laranjas.)
O cheiro das laranjas enche a noite luarenta de mistérios.
(Dizem que as noites de luar são as melhores para bombardeamentos aéreos.)
António Gedeão
Monday, 21 September 2020
POEMA DO VERDE PRADO
Enquanto a Lua sobe, o alaúde
soa, ressoa, pertinaz, plangente.
Passa de negro o espectro da virtude
movendo os lábios fervorosamente.
Bale o cordeiro manso, e a voz ecoa
tímida e branda, sonolenta e mole.
Dos prados desce às ruas de Lisboa.
Nem uma aragem na folhagem bole.
Silêncio.
Apurando o ouvido sobre a loisa,
e forcejando o fecho,
parece ouvir-se ao longe qualquer coisa.
É a Terra girando no seu eixo.
António Gedeão
Friday, 18 September 2020
Chuva na areia
Terça-feira,
quarta-feira,
quinta,
sexta,
tanto faz.
Ou desta ou doutra maneira,
domingo ou segunda-feira,
nenhuma esperança me traz.
Que eu nem sei bem pelo que espero.
Se aprender o que não sei,
se esquecer o que aprendi,
se impor meu sou e meu quero
se, num ti que eu inventei,
nenúfares boiar em ti.
Que esta coisa que se espera
é no dobrar de uma esquina.
Um clarão que dilacera,
a explosão de uma cratera,
vida, ou morte, repentina.
António Gedeão
Tuesday, 15 September 2020
Como será estar contente?
Como será estar contente?
Lançar os olhos em volta,
moderado e complacente,
e tratar com toda a gente
sem tristeza nem revolta?
Sentir-se um homem feliz,
satisfeito com o que sente,
com o que pensa e com o que diz?
Como será estar contente?
Deve haver qualquer mecânica,
qualquer retesada mola
que se solta e desenrola
no próprio instante preciso,
para que um homem de carne,
de olhos pregados no rosto,
possa olhar e rir com gosto
sem estranhar o som do riso.
Na minha tosca engrenagem,
de ferrugenta sucata,
há qualquer mola de lata
que não se distende bem,
qualquer dessorada glândula
ou nervo que não se enfeixa,
qualquer coisa que não deixa
deflagrar essa girândola
de timbres que o riso tem.
Não ter riso e não ter casa,
nem dinheiro nem saúde,
não se conta por virtude
que a miséria é ferro em brasa.
Mas ter casa, ter dinheiro,
ter saúde e não ter riso,
flagelar-se o dia inteiro
como se o sangrar primeiro
fosse um tormento preciso,
tê-lo sempre forte e vivo,
espantado a todo o momento,
isso sim, será motivo
de grande contentamento.
António Gedeão
Lançar os olhos em volta,
moderado e complacente,
e tratar com toda a gente
sem tristeza nem revolta?
Sentir-se um homem feliz,
satisfeito com o que sente,
com o que pensa e com o que diz?
Como será estar contente?
Deve haver qualquer mecânica,
qualquer retesada mola
que se solta e desenrola
no próprio instante preciso,
para que um homem de carne,
de olhos pregados no rosto,
possa olhar e rir com gosto
sem estranhar o som do riso.
Na minha tosca engrenagem,
de ferrugenta sucata,
há qualquer mola de lata
que não se distende bem,
qualquer dessorada glândula
ou nervo que não se enfeixa,
qualquer coisa que não deixa
deflagrar essa girândola
de timbres que o riso tem.
Não ter riso e não ter casa,
nem dinheiro nem saúde,
não se conta por virtude
que a miséria é ferro em brasa.
Mas ter casa, ter dinheiro,
ter saúde e não ter riso,
flagelar-se o dia inteiro
como se o sangrar primeiro
fosse um tormento preciso,
tê-lo sempre forte e vivo,
espantado a todo o momento,
isso sim, será motivo
de grande contentamento.
António Gedeão
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