Os olhos de Deus vêem todas as vias.
Faz as tuas economias para o pior dos dias.
O mandrião nada de bom deixa em herança.
Muito ler os olhos cansa.
Carregar carvão desenvolve a musculatura.
O belo tempo da infância que tão pouco dura.
Não te rias dos enfermos.
Com os adultos não se discuta e têm-se termos.
Quando à mesa te fores sentar nunca te sirvas em primeiro lugar.
Passear ao domingo é muito salutar.
Um velho respeito merece.
Não é com bombons que um menino cresce.
Mas são do que as batatas não há nada.
Criança educada deve saber estar calada.
Bertold Brecht
Saturday, 30 January 2010
Wednesday, 27 January 2010
QUANDO O TAMBOR COMEÇAR A SUA GUERRA
Quando o tambor começar a sua guerra
deveis vós continuar a vossa guerra.
Verá à sua frente inimigos, mas
quando olhar em volta, há-de
ver inimigos também atrás de si:
quando ele começar a sua guerra
há-de ver à sua volta só inimigos.
O que ali marcha
empurrado pelos seus das SS
há-de marchar contra ele.
As botas serão más, mas mesmo
que sejam do melhor coiro, hão-de
marchar nelas os seus inimigos.
As vossas rações serão escassas, mas mesmo que sejam fartas
não vos hão-de saber bem.
Os seus das SS não hã-de poder dormir.
Terão de ver bem se cada bala
está ou não carregada. E ele terá de
examinar se cada examinador examina.
Tudo o que a ele se destina, deve ser destruído, e tudo
o que dele vem deve ser usado contra ele.
Valente será quem contra ele lutar.
Inteligente, quem frustrar os seus planos.
Só quem o vencer salvará a Alemanha.
Bertold Brecht
deveis vós continuar a vossa guerra.
Verá à sua frente inimigos, mas
quando olhar em volta, há-de
ver inimigos também atrás de si:
quando ele começar a sua guerra
há-de ver à sua volta só inimigos.
O que ali marcha
empurrado pelos seus das SS
há-de marchar contra ele.
As botas serão más, mas mesmo
que sejam do melhor coiro, hão-de
marchar nelas os seus inimigos.
As vossas rações serão escassas, mas mesmo que sejam fartas
não vos hão-de saber bem.
Os seus das SS não hã-de poder dormir.
Terão de ver bem se cada bala
está ou não carregada. E ele terá de
examinar se cada examinador examina.
Tudo o que a ele se destina, deve ser destruído, e tudo
o que dele vem deve ser usado contra ele.
Valente será quem contra ele lutar.
Inteligente, quem frustrar os seus planos.
Só quem o vencer salvará a Alemanha.
Bertold Brecht
Sunday, 24 January 2010
Exaltação
Venha!
Venha uma pura alegria
que não tenha
nem a senha
nem o dia!
Abra-se a porta da vida
sem se perguntar quem é!
E cada qual que decida
se quer a alma aquecida
no lume da nova fé.
Venha!
Venha um sol que ninguém tenha
no seu coração gelado!
Venha
uma fogueira da lenha
de todo o tempo passado!
Miguel Torga
Venha uma pura alegria
que não tenha
nem a senha
nem o dia!
Abra-se a porta da vida
sem se perguntar quem é!
E cada qual que decida
se quer a alma aquecida
no lume da nova fé.
Venha!
Venha um sol que ninguém tenha
no seu coração gelado!
Venha
uma fogueira da lenha
de todo o tempo passado!
Miguel Torga
Thursday, 21 January 2010
Desespero
Não eram meus os olhos que te olharam
Nem este corpo exausto que despi
Nem os lábios sedentos que poisaram
No mais secreto do que existe em ti.
Não eram meus os dedos que tocaram
Tua falsa beleza, em que não vi
Mais que os vícios que um dia me geraram
E me perseguem desde que nasci.
Não fui eu que te quis. E não sou eu
Que hoje te aspiro e embalo e gemo e canto,
Possesso desta raiva que me deu
A grande solidão que de ti espero.
A voz com que te chamo é o desencanto
E o espermen que te dou, o desespero.
Ary dos Santos
Nem este corpo exausto que despi
Nem os lábios sedentos que poisaram
No mais secreto do que existe em ti.
Não eram meus os dedos que tocaram
Tua falsa beleza, em que não vi
Mais que os vícios que um dia me geraram
E me perseguem desde que nasci.
Não fui eu que te quis. E não sou eu
Que hoje te aspiro e embalo e gemo e canto,
Possesso desta raiva que me deu
A grande solidão que de ti espero.
A voz com que te chamo é o desencanto
E o espermen que te dou, o desespero.
Ary dos Santos
Monday, 18 January 2010
Sonata de Outono
Inverno não ainda mas Outono
a sonata que bate no meu peito
poeta distraído cão sem dono
até na própria cama em que me deito.
Acordar é a forma de ter sono
o presente o pretérito imperfeito
mesmo eu de mim próprio me abandono
se o rigor que me devo não respeito.
Morro de pé, mas morro devagar.
A vida é afinal o meu lugar
e só acaba quando eu quiser.
Não me deixo ficar. Não pode ser.
Peço meças ao Sol, ao céu, ao mar
pois viver é também acontecer.
José Carlos Ary dos Santos
a sonata que bate no meu peito
poeta distraído cão sem dono
até na própria cama em que me deito.
Acordar é a forma de ter sono
o presente o pretérito imperfeito
mesmo eu de mim próprio me abandono
se o rigor que me devo não respeito.
Morro de pé, mas morro devagar.
A vida é afinal o meu lugar
e só acaba quando eu quiser.
Não me deixo ficar. Não pode ser.
Peço meças ao Sol, ao céu, ao mar
pois viver é também acontecer.
José Carlos Ary dos Santos
Friday, 15 January 2010
Esperança
E depois talvez venha
o anjo da visita e do poema,
e traga o lume e a lenha
do incêndio pedido.
Talvez venha,
de ritmos vestido.
Talvez... E, como outrora,
ponha sobre a cabeça
do poeta de agora
os versos que ele mereça.
Em forma de grinalda,
inocente e florida,
talvez o faça ungido
dum grito a mais na vida
inútil e dorido...
Miguel Torga
o anjo da visita e do poema,
e traga o lume e a lenha
do incêndio pedido.
Talvez venha,
de ritmos vestido.
Talvez... E, como outrora,
ponha sobre a cabeça
do poeta de agora
os versos que ele mereça.
Em forma de grinalda,
inocente e florida,
talvez o faça ungido
dum grito a mais na vida
inútil e dorido...
Miguel Torga
Tuesday, 12 January 2010
Perenidade
Nada no mundo se repete.
Nenhuma hora é igual à que passou.
Cada fruto que vem cria e promete
uma doçura que ninguém provou.
Mas a vida deseja
em cada recomeço o mesmo fim.
E a borboleta, mal desperta, adeja
pelas ruas floridas do jardim.
Homem novo que vens, olha a beleza!
Olha a graça que o teu instinto pede.
Tira da natureza
o luxo eterno que ela te concede.
Miguel Torga
Nenhuma hora é igual à que passou.
Cada fruto que vem cria e promete
uma doçura que ninguém provou.
Mas a vida deseja
em cada recomeço o mesmo fim.
E a borboleta, mal desperta, adeja
pelas ruas floridas do jardim.
Homem novo que vens, olha a beleza!
Olha a graça que o teu instinto pede.
Tira da natureza
o luxo eterno que ela te concede.
Miguel Torga
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