Saturday, 18 January 2025

vendavais do tempo

 
enquanto se esvai o tempo,
como areia de um deserto ao vento,
dobram-se cabos de tormentas,
redobram-se forças e revoltas.

que essa areia assentará sempre algures,
no futuro,
algures,
sempre.

Miguel Tiago

Wednesday, 15 January 2025

os vampiros

 
não nos basta saber
que nos roubam o pão,
que contra nós
conspiram escondidos
os parasitas e os assassinos.
não nos basta saber
que morrem de fome os nossos irmãos,
e que os homens livres morrem na prisão.

não nos basta saber que os vampiros
morrem quando param de chupar-nos o sangue,
é preciso querer e fazer com que eles parem.

Miguel Tiago

Sunday, 12 January 2025

esgota-se o tempo

 
já não há tempo para que a poesia se dê ao luxo
de passear nos bosques encantados e nos egos poluídos
dos intelectuais de escrivaninha.

já não há tempo para que os versos se ostentem,
bem rimados, construídos, bem ritmados, bonitos,
nos corações vazios da burguesia.

é urgente que as palavras ganhem o peso das pedras,
se revoltem com os que vivem sem poesia e sem pão.
não há tempo para brincar aos poetas, ao depressivo snob en vogue.

só nos resta tempo para que se não nos acabe o tempo,
para que gritemos ainda que não abdicámos do futuro,
com propriedade, ou mesmo sem.

Miguel Tiago

Thursday, 9 January 2025

triunfo

 
aqueles que nos construíram o mundo
de hoje e do passado,
não poderiam perdoar que não erguêssemos nós o de amanhã.

Miguel Tiago

Monday, 6 January 2025

sem título

 
ser poeta não é ser maior do que os homens.

Miguel Tiago

Friday, 3 January 2025

parasita

 
já nos dói a vida do dia-a-dia,
de ficar mais pobre neste sol
que estava ainda na anterior lua.

pago eu a tua barriga gorda,
o inchaço dos teus bolsos,
com a fome dos meus filhos
e minha barriga vazia.

pago com os calos das minhas mãos,
a finura dos teus dedos;
com o suor do meu corpo,
o fresco conforto do teu ar condicionado;

pago com as noites mal dormidas,
o teu sono descansado;
com a renda da minha casa,
as obras que nela nunca fizeste;
pago com o meu desespero,
o teu opulento descanso.

e de tudo quanto faço,
me roubas o maior pedaço.

roubas, roubas, roubas
e vives acima do que posso pagar-te,
bicha solitária, filha da puta.

Miguel Tiago

Wednesday, 1 January 2025

sem título

 
sabemos que o mundo muda, constante, embora lentamente. mas satisfaz-nos saber que, no derradeiro dia, estivemos do lado do progresso e da mudança e não do retrocesso ou paralisação.

sabemos que é difícil a luta, empolgante, porém. mas é-nos grato abraçar quem nela caminha a nosso lado e levanta alto o punho da transformação.

não podemos conhecer o caminho, tampouco saber quanto dele está por percorrer. todavia, o mais importante é termos a certeza de que esse caminho aí está, inevitável.

que melhor fim pode ter um ser humano que não ser, isso mesmo, humano.

Miguel Tiago