Friday, 8 March 2024

Mulher, levanta-te e luta…luta!


Mulher,
Tu que contas até ao último cêntimo a magra pensão de reforma sujeita a cortes e recortes, e que miras o seu sorriso esquálido deixando escorrer pelos seus dentes podres o sangue suor e lágrimas da tua fugidia vida
Tu que depois dos cravos de Abril ouviste dizer com espanto que tinhas vivido acima das tuas possibilidades, que eras burra e tinhas falta de civismo por não deixar o Governo governar
Tu que nunca leste livros cor de rosa, mas sabes a importância da palavra fome, palavra que conheces bem, por dentro e por fora,
Mulher,
Tu que ouviste dizer com espanto que o aumento do salário mínimo prejudicaria o emprego
Tu que todos os dias te confrontas com o medo de perder o emprego, que o desemprego já bateu à porta do vizinho e tu estás na calha
Tu que tens um filho jovem a contas com uma taxa de desemprego jovem equivalente ao dobro da taxa normal
Tu que te amontoas nas três divisões da casa com a família do teu filho sem filhos que a vida está pelas ruas da amargura
Mulher,
Tu que viste ser-te retirado o subsídio de desemprego e o abono de família
Tu que aguardaste horas junto da maca num corredor do Hospital até receberes o último suspiro do teu pai com a vida macerada por este pesadelo que o 25 de Abril não lhe reservava
Tu que contaste até ao último cêntimo para arranjar dinheiro com que comprar os cadernos para a escola da tua filha mais nova
Tu que tiveste de recorrer à caridade pública e ir almoçar o pão que o diabo amassou no refeitório onde desaguam os restos dos novos milionários
Tu que viste empobrecer o teu país para pagar uma dívida que não era tua mas dos corruptos que a governam
Tu que ouves constantemente falar nos quase três milhões de pobres e excluídos que o país tem
Mulher,
Tu que vês diminuir diariamente o número de cidadãos portugueses
Tu que vês diminuir o número de crianças
Tu que foste ao aeroporto despedir-te do teu filho que emigra para longes terras em busca do Futuro que esteve ao alcance da sua mão.
E que é mais um número nos cerca de 50% jovens emigrantes
Tu que vês aumentar a pobreza infantil e juvenil
Tu que vês a Pátria em Perigo
Mulher,
Tu que tanto deves ao 25 de Abril
Levanta-te e luta…luta!

Wednesday, 6 March 2024

gava

se existisse um espelho, no lugar da lua,
a terra toda estremeceria.
e quem sabe não são os mares,
esse manto salino que a cobre,
as lágrimas caídas
de quem pariu inadvertidamente traição?

Miguel Tiago

Sunday, 3 March 2024

ao povo soviético

quando viste o teu país destroçado,
as mulheres perdidas, os homens devastados,
quando viste o teu povo vergado, rastejando,
e chamaste a ti a força escondida do Ser Humano,
soubeste o preço em sangue da revolta,
da conquista do pão, cujo trigo em tua terra,
em teu trabalho ia crescendo.

soubeste o custo fatal da audácia,
e nos teus olhos brilharam os sonhos de todos os explorados,
dos corações e dos punhos agrilhoados.

quando empunhaste as armas da coragem e levantaste o rosto à vitória,
sabia-la longínqua, porém incontornável,
como o destino das aves que migram, sempre inexorável.
mesmo que uma, duas, dez ou vinte, tombem no caminho para a glória.

e tu tombaste, irmão,
todavia
a tua força é perpétua,
não como a onda, mas como a maré.

mesmo sob as garras das bestas, das águias cobardes,
levaste mais alto a bandeira vermelha,
do que soubera possível a soma até aí de toda a dignidade,

se alguma coisa perdeste nessa guerra,
não foi a vida, irmão,
foi a prisão.

para que possamos hoje, como então,
dizer não.

e abrir de verdade as portas da liberdade.

Miguel Tiago

Friday, 1 March 2024

ao povo português

vencemos a fome,
vencemos o esforço e o suor,
a dor e o cansaço,
vencemos as obrigações,
as prisões.
vencemos os fascistas,
as torturas as censuras,
vencemos março, fizemos Abril.
não ficámos fechados
como quiseram os oportunistas,
antes abraçados
enchemos as ruas nunca assim vistas.

abrimos a golpes de machado o nosso futuro.

mas já antes viajámos, cortámos as vagas furiosas,
vencemos o mar,
cumprimos destinos,
fomos personagem de epopeia,
vencemos o vento da história que leva a poeira.

e hoje resta-nos vencer em terra,
fazer o destino acontecer,
para ver o nosso cravo crescer.

Miguel Tiago

Tuesday, 27 February 2024

- sem título -

sob as pedras hoje
descansarão as águas antes de encherem os rios.

é outono, já?

é outono.

Miguel Tiago

Saturday, 24 February 2024

sopro

tu és o meu sopro.

é ainda e será sempre nos teus lábios
que morro em constantes explosões,
ou que vivo em apertos desmedidos.

é no teu peito que descanso,
que me deixo,
mas que saudavelmente me canso,
ofegante sereno pleno.

como o teu olhar me sustém o fôlego
e é simultaneamente o ar que respiro.

Miguel Tiago

Wednesday, 21 February 2024

chuva

com a chuva lá fora,
posso eu faltar aos versos,
ou as estrofes pulsantes ficarem molhadas pelo chão,
mas sei que a mim
não faltará jamais a poesia.

árvore frondosa, terra fértil,
que renasce da morte das folhas do outono,
e ganha a força do vento em meses de maresia.

Miguel Tiago