Tuesday, 6 June 2023

a vida e a morte da estrela polar

lá no berço mais antigo
onde se aprende o norte do universo
pelo cheiro das galáxias
caminhamos a vereda íngreme da verdade
o sol põe-se o sol nasce
e nós juntamos o que pensamos hoje em cima
dos milhões que pensaram antes
e a nossa matéria
toma de si própria a consciência possível
no meio da tempestade
e do vento indecifrável das poeiras estelares
a maternidade de nós todos é uma estrela
e nós somos, até ver, na versão menos romântica estrelas mortas
a estrela polar morre no equador
porque escrevo no hemisfério norte
mas é no equador que nasce o cruzeiro
e a terra
acho que a terra também nasceu lá no sul
lá onde a vida não é um sucedâneo espanhol de chocolate
é cacau
onde a coca não é ina, é folha,
o nosso norte é o sul.

mas lá pelo sul também já espalharam norte.

Miguel Tiago


 

Saturday, 3 June 2023

clímax

molha na Língua
dois dedos de poesia
toca bem fundo
e suspira. 

Miguel Tiago

Thursday, 1 June 2023

sem título

quando cheguei
o quarto já estava desarrumado
a sala estava quase
eu virei o resto
todo o pó de um arco-íris que nunca veio
já estava no chão
o relógio marcava meia-noite
meia-noite e umas quantas traças nocturnas de verão
que eu não trazia quando entrei
as teias tecidas no canto da cozinha
eram de aranhas que encontrei na despensa
depois de noites inteiras a procurar
e o sótão sem janelas
só tinha a limpidez de uma noite depois da chuva
alguma parte disto
será minha
uma herança de milhões
de genes
perdidos no atlântico
que ainda hoje andarão nas vagas à deriva
um caminho que o vento traçou em ondas
de breu
uma viagem cujo destino não vai a lado nenhum
ou então já lá estou
dorme
dorme
meu menino que a maezinha logo vem
foi lavar os coerinhos à fontinha de belém
e uma toca de cria de lobo ibérico sem escolha
à espera de predador que o valha
sendo comido a pouco e pouco
por animais sem paladar
estes são os dias em que tudo o que agradecemos é pouco
porque uma toca é uma concha onde não mora mais ninguém
e ainda bem
somos o vento na ponta do dedo molhado pela língua
o norte no céu depois de ver onde cai o sol
somos a espingarda que não dispara porque é um brinquedo que esculpimos em madeira
a noite e o beijo na testa
que no fim do dia espreita com a lua não importa se está nova
somos o princípio e o fim de nós todos porque só há todos com nós
e um dia quando sussurrar no ouvido de alguém
desarruma-me
estarei a mentir
porque desarrumado já estava desde o dia, a noite,
em que junto aos trópicos entrei no quarto pela primeira vez.
 
Miguel Tiago

Tuesday, 30 May 2023

sem título

riscaste de azul o meu coração
e ele foi por aí fora meteoro
cruzando o céu em estrela cadente
quando cair
à volta não restará mais do que o deserto
e no centro um meteorito 
 
Miguel Tiago

Saturday, 27 May 2023

sem título

o vento a bater as asas
e as árvores desde a sua casca a testemunhar
altos voos em concerto da sua plumagem extrema
um caminho à vista pelo álamo abaixo
e infinitos atalhos entre o canto secreto das dríades

que infinita sedução a do caminho mais curto
que não leva a lado nenhum
não há sítio para chegar
se não partimos de ítaca, o retorno é simplesmente poético
e ainda há tantas estrelas no ar
ainda há tantas velas para içar
um sextante perdido no mar
um albatroz que teima em voar
sem levantar voo do convés
não
o caminho não é curto para quem gosta de andar
para mim só a infinita lonjura do horizonte.
 
Miguel Tiago

Wednesday, 24 May 2023

sem título

a verdade
a verdade é que olhamos uns para os outros
e isto é tudo
um grande centro
de um engano
fun
da
men
tal
desde a origem
ao fim dos apocalipses
a verdade
a verdade é que isto é tudo uma grande
incógnita filha da putice.
 
Miguel Tiago

Sunday, 21 May 2023

um brinde

dois shots de lua cheia
se chego a este balcão para falar da minha vida
tu ouves, pões a bebida
e bebes uma comigo. 

Miguel Tiago