À cal de um muro encosto a língua para cauterizar uma afta. Depois, por gratidão, na alvura dele traço uma pomba e, a grandes letras, escrevo a palavra liberdade.
enquanto os gatos miam
furtam-nos a escuridão da noite
e as estrelas acendem-se-lhes nos olhos
cruzando ligeiras os becos ao fundo
gatos pardos estrelas verdes
por toda a cidade
e nós a desperdiçar lentamente
o veludo negro
enquanto dormimos.
temos à vista as raízes
e a verticalidade exige que se afundem
na terra nem sempre macia
furando o musgo e rasgando o substrato
de pedra
o vento agita o ligeiro arbusto
da árvore apenas as folhas
mas há sempre quem venha com as máquinas
o madeireiro capaz de arrancar a mais antiga sequóia
quanto mais a mim.
é um sinal dos tempos
que a todo o tempo se repita
que no passado é que era bom
que no meu tempo não era assim
disse-o meu bisavô
ai que a juventude está perdida
dirão os meus bisnetos
que a seu tempo que está perdida a juventude
vem o raro sopro de planetas alinhados
daqueles que dizem que vai provocar um fim do mundo
e dás por ti tens dentro do peito dois corações em chamas
e estrelam-se-te pela pele magnésios e cobres de todas as cores
em constelações de fogos
e tu deixas-te ficar
p'ra sempre que é como devia ser
até não teres coração nenhum.