Monday, 18 April 2022

sem título

dias pequenos horas largas
a pousar no outono
a inesquecível melodia
do pôr-do-sol. 

Miguel Tiago

Friday, 15 April 2022

sem título

foi inesperado o meu encontro
à mesa com jesus cristo
trazia um ar cansado
e eu espantado

depois disse-me que aquilo de transformar a água em vinho
era um truque de ilusionismo

e eu pensei
estamos fodidos. 

Miguel Tiago

Tuesday, 12 April 2022

pagão

a chama no peito
humores semente
não é asséptico o clamor
da nossa beleza
porque isto de nascer de um ventre
de pele sanguínea
é sempre
um ardor que permanece
tanto nas asas
como no útero
dessa massa lama
se faz gente
que cavalga o mar
sobre o dorso dos monstros marinhos
e sobrevive a si própria
com amor
e nojo

deus, nosso pai, fez-nos à sua imagem.
felizmente saímos à mãe.  

Miguel Tiago

Saturday, 9 April 2022

sem título

para onde vão os fantasmas
quando o amor se separa da carne
e o corpo exangue teima em não sucumbir.

Miguel Tiago

Wednesday, 6 April 2022

sem título

 este poema não é sobre nós

quando a mão se nos estende
as polpas dos dedos são raízes para as galáxias
cabo que amarra ao ferro
no fundo do mar
iça do meio do peito
a alma segura
pelo estai dos desgraçados
que nunca desistem
de ser cais
da mais deserta embarcação.

Miguel Tiago

Sunday, 3 April 2022

sem título

aqui estamos sentados
à beira do planeta
não é azul

afinal

é transparente.

daqui vemos os mares
e os continentes
cumprindo historicamente
o desígnio de conter
e nós alados
jamais nos permitiríamos
correr atrás da nossa cauda
às voltas num astro redondo.

Miguel Tiago

Friday, 1 April 2022

sem título

 na floresta as sombras são mais pequenas no inverno

é mais solitária na multidão
a mão estendida do homem ao abandono

o dia espalha-se mais luminoso entre árvores despidas. 

Miguel Tiago