Tuesday, 15 March 2022

cifra


quero que morras depois de mim
sabendo o que se lerá no teu epitáfio
depois de beber-te do crânio nu o sangue vivo. 
 
Miguel Tiago

Saturday, 12 March 2022

sem título


abre o guia completo para a solidão
na página sobre multidão
se puderes, sê um pássaro
e voa sobre todos os animais 
mas vê uma floresta.
 
Miguel Tiago

Wednesday, 9 March 2022

casa


regresso a casa pela porta dos fundos
para não dar pela chegada
que é como quem acaba por não dar pela saída
nem os cães ladram nem a caravana passa
e as labaredas do sossego descem pelas paredes
como um aconchego
que banalidade essa a da casa
do lar
onde miam todos os gatos que importam no mundo
e encaixam as almas nos corpos
para por fim meditarem as virtudes e os pecados de mãos dadas
caminhando pelo álamo da consciência
e seguirem sem deslizar para as bermas
em que rastejam os animais que vivem de solidão.

Miguel Tiago

Sunday, 6 March 2022

sem título


em quantas paredes
de quantas casas
pintaste o teu nome com o sangue de quem lá mora
em quantas muralhas
abriste a fenda da derrota
quantos milhares de gotas de chuva
morreram às tuas mãos
por teres a garganta seca
por ires por essa noite afora
na treva unida e límpida
de archote aceso ao vento
ofegante e ligeiro com os pés descalços
pelo ladrilho molhado
como quem grita ao mundo
que está aqui.

Miguel Tiago

Thursday, 3 March 2022

m.a.r.


depois dos faróis apagados
é que as estrelas são úteis
e a navegação tolera a vaga
que já não esconde o horizonte

que importa o horizonte
no mar quando não há terra. 
 
Miguel Tiago

Tuesday, 1 March 2022

Por Abril - Éramos cinquenta mil

Éramos cinquenta mil
a desfilar por Abril
- ali, na rua,
a afirmar o que se ouviu:
«agora ninguém mais cerra
as portas que Abril abriu»

Éramos cinquenta mil
a desfilar por Abril
- ali, na rua,
cada um mostrando,
bem à vista,
o cartão de militante comunista.

Éramos cinquenta mil
a desfilar por Abril
- ali, na rua,
a explicar
o sentido e os porquês
de sermos
o Partido Comunista Português.

Éramos cinquenta mil
a desfilar por Abril
- ali, na rua,
a garantir
que a luta continua.  


Fernando Samuel
1.3.2008

sem título


no inverno
as rochas voltam à placenta do musgo

a respiração vê-se ao longe
e nada reveste o coração.

Miguel Tiago