apesar dos olhos fechados
pulverizei de estrelas a escuridão.
Miguel Tiago
há um barco que nos leva
através da vaga.
sob a maresia há portos de abrigo.
ao longe. após as fragas.
Miguel Tiago
bem sei que a escrita não faz parte da Língua
ainda bem.
escrever ato não escrevo
persisto no acto
não gosto de ser lambido por uma língua morta.
Miguel Tiago
As armas, as bonitas, as brilhantes
As que devemos limpar amiúde para o prazer
E que devemos acarinhar como para o prazer
E são, ainda, o que faz sonhar os que vivem em comunhão.
As armas, azuis como a Terra
As que devemos guardar no calor do fundo da alma
Nos olhos, nos corações, nos braços de uma mulher
Que guardamos dentro de nós como se guarda um mistério.
As armas, no segredo dos dias
Sob a erva, no céu e na escrita
As que te farão sonhar muito tarde nas leituras
E que trazem a poesia ao discurso.
As armas, as armas, as armas
E os poetas de serviço ao gatilho
Para acender os últimos cigarros
No fim de um verso francês brilhante como uma lágrima.
Miguel Tiago
as flores caem
o fim é o princípio
e as flores nascem
o princípio é o fim
só a morte semeia a vida
o espaço entre os corpos é o vazio
o mais sólido dos preenchimentos
deixar que me tome nos braços o medo e o precipício
para nos meus tomar o voo da coragem
Miguel Tiago
da janela por onde olho
o longe quase me toca a ponta dos dedos
o beijo no ombro
o cheiro da manhã
de maio mesmo aqui
enquanto passa ao longe uma semana
que navega as águas do rio.
Miguel Tiago
que as lâminas de água dos rios se perturbem
e a turbulência agite as moléculas do tempo
do tempo
esse companheiro assassino
que nos enfia o veneno oxidante
pela alma adentro
até aos pulmões.
Miguel Tiago