a montanha
porém
o rio
Miguel Tiago
para mim é um, se faz favor. sem princípio nem fim.
Miguel Tiago
a casa abandonou-me, vazia. e os lençóis tremem de frio nas mais quentes noites de verão. frio ou solidão.
já nada habita o interior e apenas o verde das plantas na varanda
lembram, ainda que remotamente, alguém. ou a projecção da sua sombra no
vidro fosco da porta da sala, porque ao vento, ligeiramente, ondulam e
agitam as pequenas folhas.
resta-me um último refúgio, onde ainda respiro, como se de lá pudesse
sorver o oxigénio que me leva a ausência, ainda que em doses curtas. é a
gaveta esquerda, a mais próxima da minha cabeça e a única onde deixaste
o que quer que seja.
Miguel Tiago
das ondas do mar
o vento a vela e as nuvens
como se dali nascessem os naufrágios
e chorassem naus a plenos pulmões
enquanto o fundo do mar abre os braços
dos abismos
e as profundezas murmuram as últimas lembranças
da luz e da superfície.
esse mar
eu naufragado, fragmentado contra uma fraga
de rochas feitas de sonhos que não cumpri.
Miguel Tiago