Saturday, 6 February 2021

sem título

 

se tudo quanto levas contigo é a morte,

que deixes tudo quanto possas de ti na vida. 

Miguel Tiago

 

Wednesday, 3 February 2021

lei da dupla negação


a esperança nasce quando a esperança morre,
como a árvore que se nega para novos rebentos tomarem o seu chão,
longínquos sonhos são os que ficaram para trás,
pois hoje, amanhã é utopia.  

Miguel Tiago

Monday, 1 February 2021

- sem título -


nos dias de maresia
junto às muralhas
sentes no rosto o choro das ondas
em revolta

um pequeno frio

salpica-te a alma. 
 
Miguel Tiago

Saturday, 30 January 2021

- sem título -

 o sopro que nos enche de novas moléculas
o sangue,

aquele orvalho que se eleva ao céu
no final das madrugadas,

poema.

e é os dias. todos. e as noites. todas.
assim possam os homens. todos. ter poesia. 

Miguel Tiago

Wednesday, 27 January 2021

vida de criminoso

 criminoso és tu,
filho de quem jamais escreverá leis
nas assembleias-matilhas,
criminoso és tu que aos portões da fábrica
não deixas partir o que construíste
e enfrentas o escudo e a arma romba do cão-de-fila,
criminoso és tu que não vendes de borla o teu trabalho
e desafias o deus moderno
das santas bolsas e dos benditos mercados.

Cri  mi  no  so!
gritam envoltas na chinchila morta as senhoras
gritam raivosos de charuto gordo os senhores,
ai que nos levam o que nos deram a ganhar,
ai! que nos levam a mansão feita de seus ossos,
ai que nos levam a herdade feita de sua carne,
ai! que nos levam a carteira feita de sua pele,
e o manjar de sangue dos nossos banquetes!

criminoso és tu que ousas cheirar
o esterco em que te enterram e dizer a toda a gente
que um dia ousarás escrever as leis
do povo, nas ruas e nas fábricas,
e que se cada linha dessas leis valer uma vida,
muitas são as dos criminosos prontos a dá-la. 

Miguel Tiago

Sunday, 24 January 2021

uma falua


navega falua
tranquilas águas,
e corta com a proa pequenas ondas
de um estuário sem vento.
navega falua 
rumo à foz.
e leva nas velas a nossa voz.
 
Miguel Tiago

 


Thursday, 21 January 2021

capitalismo

eu sou vampiro e ando de dia,
não fujo da cruz e nela me refugio.
cobro juros sobre o sangue que te sorvo,
e assim mantenho a ninhada da aristocracia.
 
Miguel Tiago