Friday, 18 December 2020

NEM A SETE CHAVES


Nem a sete chaves
de mim separado,
de ti separado,
guardado dos outros,
em mim conseguiram,
no tempo das trevas,
nas trevas das celas,
as trevas murchar
os cravos solares
floridos em mim,
em mim ateados,
do meu pensamento,
da minha certeza,
da minha vontade.

Armindo Rodrigues

Tuesday, 15 December 2020

NÃO QUERER NADA...


Não querer nada do que os outros querem,
não fazer nada do que os outros fazem,
não é afirmação de independência,
não é afirmação de liberdade,
mas um capricho apenas de burguês,
birrento, pretensioso, negligente,
mal-educado, ocioso e insensato.

Armindo Rodrigues

Saturday, 12 December 2020

A longa espera


Até onde chegará a nossa
resistência?
Até onde
suportaremos nós,
homens de carne e osso,
a tortura inumana?
Até onde, pacientes,
metódicos,
secretos,
seremos capazes de levar
as nossas palavras
firmes e consoladoras?
Até onde ecoarão elas,
e em que ouvidos?
Até onde teremos de mascarar-nos,
de mentir,
de fingir?
Revolução
porque tardas?
Já escarva o chão,
pronto a investir,
o gigantesco toiro,
de baba espessa,
de olhos chispantes
e frementes músculos.
Já desabrocham cravos
no silêncio contido.
Já as ocultas labaredas
se preparam para desfraldar-se
resgatadoras,
ao vento solto.
Já as multidões,
com a sua ira,
quebram em estilhaços
o lavado cristal do dia atento.
Revolução,
porque tardas?
Desdobra, cotovia amável,
como um harmónio,
a tua alacridade,
sob o frio dos escombros.
Semeia, sol,
a luz e o calor fertilizadores
pelos campos lavrados.
Dai as mãos e anunciai,
trabalhadores de todo o mundo,
o grande recomeço.
Soldados,
quebrai com ímpeto
as vossas armas arrependidas
e pisai-as.
E tu, menino, proclama,
com a tua voz de alvorada,
para além dos teus desejos,
os teus sonhos realizados.


Armindo Rodrigues

Wednesday, 9 December 2020

Porque revelam...


Porque revelam,
ainda por cima, tanto ódio
os possuidores da terra
pelos que pedem trabalho,
se estes querem, pelo contrário,
a terra para todos?

Armindo Rodrigues

Sunday, 6 December 2020

HOMEM


Homem
que mate um homem não é homem.
Homem
que explore um homem não é homem.
Nem homem é
homem que imponha a um homem
nem falsa exaltação
nem cobardia.

Armindo Rodrigues

Thursday, 3 December 2020

Porque havemos de o esquecer?


Por que havemos de o esquecer?
Foi a exemplo secreto dos espectaculares
autos-de-fé piedosos
da por igual maldita abjecção
católica-romana,
que a um punhado de cinza
e fumo pelo espaço,
nauseabundo e sufocante
se reduziram milhões de corpos dolorosos
nos fornos crematórios
dos campos de concentração
de recordação recente.

Armindo Rodrigues

Tuesday, 1 December 2020

LIVRE


Livre de todas as servidões me sinto,
livre de todas as servidões me quero,
conquanto acusado
de servir constantemente a liberdade.
E servidor constante da liberdade o sou,
o que é, a par, a libertação possível,
o que é, a par, a libertação total.

Armindo Rodrigues