Por sorte que vi, por sorte que vi,
por sorte que vi esse dia.
Esse dia, por sorte que o vi em Paris.
Paris correu como um rio.
O verdadeiro Paris,
o grande Paris,
todo azul e vermelho,
e o Reno e o Ródano e o Garona e o Sena correram;
Paris correu como as águas em cascata.
Paris desfilou em 1958
a 28 de Maio.
Por sorte que vi, por sorte que vi
esse dia, por sorte que o vi em Paris.
O homem transpôs as portas.
De um momento para o outro o homem encheu a praça.
Como gaiola aberta para o pássaro sair,
os muros libertaram o homem.
De repente um homem confundiu-se
com quinhentos mil homens.
Quinhentos mil homens
confundiram-se
com um único homem:
Ivry, Saint-Denis, Belleville,
todos os arrabaldes de Paris
chegaram
de bicicleta.
As pedras animaram-se para se transformarem em homens.
Ah este coração! Ah este coração! Ah este coração!
Coração doente, maldito coração!
Este coração que impede que eu me misture com eles:
à cabeça, os deputados, cingidos com as
suas faixas,
à minha direita, Pierre, o torneiro de olhos de água;
à minha esquerda, o professor da Sorbonne,
de barba branca;
à minha direita, um
baixo e moreno,
explosivo;
os seios da rapariga de azul ao meu lado
são bombas,
e os saltos dos sapatos, agulhas.
Ah este coração! Ah este coração!
que me impede de integrar a corrente,
de uma praça para outra.
Escrevo tudo isto
a 29 de Maio de 1958.
Sei que há traidores entre nós,
conheço alguns.
Quem sabe? É talvez um pouco
por nossa causa
que as águas, em sucessivas vagas,
de azul e vermelho,
não conseguem destroçar
o navio negro do corsário.
Nazim Hikmet
Wednesday, 18 November 2020
Sunday, 15 November 2020
OS CANTOS DOS HOMENS
Os cantos dos homens são mais belos que os homens,
mais densos de esperança,
mais tristes,
com uma vida mais longa.
Mais do que os homens eu amei os seus cantos.
Consegui viver sem os homens
nunca sem os cantos;
aconteceu-me ser infiel
à minha bem amada
mas nunca ao canto que para ela cantei;
nunca também os cantos me enganaram.
Qualquer que fosse a sua língua
sempre compreendi os cantos.
Neste mundo,
de tudo o que pude beber e comer,
de todos os países por onde andei,
de tudo o que pude ver e ouvir,
de tudo o que pude compreender,
nada, nada
conseguiu fazer-me tão feliz como os cantos...
Nazim Hikmet
mais densos de esperança,
mais tristes,
com uma vida mais longa.
Mais do que os homens eu amei os seus cantos.
Consegui viver sem os homens
nunca sem os cantos;
aconteceu-me ser infiel
à minha bem amada
mas nunca ao canto que para ela cantei;
nunca também os cantos me enganaram.
Qualquer que fosse a sua língua
sempre compreendi os cantos.
Neste mundo,
de tudo o que pude beber e comer,
de todos os países por onde andei,
de tudo o que pude ver e ouvir,
de tudo o que pude compreender,
nada, nada
conseguiu fazer-me tão feliz como os cantos...
Nazim Hikmet
Thursday, 12 November 2020
A ESPANHA
Entre nós, uns atingem os sessenta;
outros vão um pouco mais longe,
outros há que são apenas uma mancheia de ossos.
A Espanha, nossa juventude,
a Espanha é uma rosa ensanguentada que desabrochou em nossos peitos.
A Espanha, nossa amizade na penumbra da morte,
a Espanha, nossa amizade à luz da nossa esperança invencível.
E as velhas oliveiras, com talhos, e a terra amarela e a terra vermelha esburacadas.
Entre nós, uns atingem os sessenta;
outros vão um pouco mais além,
outros há muito que são apenas uma mancheia de ossos.
Madrid caiu em 39:
quantas coisas, boas ou amargas, aconteceram aos homens de então!
A Espanha caiu em 39.
Em 62 vem-nos das minas das Astúrias a sua voz colérica e fraterna,
vem-nos do fundo da nossa esperança invencível, de Bilbao.
A Espanha era a nossa juventude,
a Espanha é a vossa juventude.
A Espanha é na palma da mão a linha da vida de todos nós.
Nazim Hikmet
Monday, 9 November 2020
Poesia e propaganda
Hei-de mandar arrastar com muito orgulho,
pelo pequeno avião da propaganda
e no céu inocente de Lisboa,
um dos meus versos, um dos meus
mais sonoros e compridos versos:
E será um verso de amor...
Alexandre O'Neill
Friday, 6 November 2020
AUTOBIOGRAFIA
Nasci em 1902
não voltei mais à minha cidade natal
não gosto de regressos.
Com a idade de três anos, em Alep fiz profissão de neto de paxá,
com dezanove anos, de estudante na universidade comunista de Moscovo,
com quarenta e nove anos em Moscovo
de convidado do Comité Central,
e desde os catorze anos que exerço a profissão de poeta...
Há pessoas que conhecem todas as espécies de ervas,
outras as de peixes,
eu as das separações.
Há pessoas
que podem citar de cor
os nomes das estrelas,
eu os das nostalgias.
Dormi em prisões e também em grande hotéis.
Conheci a fome e também a greve da fome
e não existe manjar que eu não tenha provado.
Aos trinta anos quiseram enforcar-me.
Aos quarenta e oito anos quseram dar-me o Prémio mundial da PAZ
e deram-mo.
No ano em que fiz trinta e seis anos percorri durante seis meses
quatro metros quadrados de betão.
Aos cinquenta e nove anos voei de Praga até Havana em dezoito horas.
Nunca vi Lenine mas montei guarda junto do seu catafalco em 1924.
Em 1961 o mausoléu que visito são os livros.
Tentaram separar-me do meu Partido
não conseguiram.
Não fiquei esmagado sob os ídolos caídos
em 1951 no mar em companhia de um camarada
caminhei para a morte.
Em 1912, com o coração destroçado, esperei a morte
durante quatro meses deitado de costas.
Tive um ciúme louco das mulheres que amei.
Nem Charlot eu invejei.
Enganei as minhas mulheres
mas nunca murmurei nas costas dos meus amigos.
Bebi sem me tornar um bêbado,
por felicidade, sempre ganhei o pão com o suor do meu rosto.
Se menti foi por ter sentido vergonha por outrem,
menti para não prejudicar terceiros,
mas também menti sem razão.
Tomei o comboio, o avião, o automóvel,
a maior parte das pessoas não pode tomá-los.
Fui à Ópera
a maior parte das pessoas não pode lá ir e até ignora o nome.
Mas onde vai a maior parte das pessoas, desde 1921 que lá não vou:
à mesquita, à igreja, à sinagoga, ao templo, ao feiticeiro,
mas li algumas vezes nas borras do café.
Estou traduzido em trinta ou quarenta línguas
mas na Turquia estou proibido na minha própria língua.
Não tive cancro até à presente data,
também não era obrigatório.
Não serei primeiro-ministro et
cétera
nem tenho prazer nenhum nesse tipo de trabalho.
Também não estive na guerra
não corri noite cerrada para dentro dos abrigos
nem me vi
pelos caminhos
sob aviões a descerem a pique
mas quase aos sessenta anos enamorei-me.
Para ser breve, camaradas,
hoje aqui em Berlim, embora morrendo de tristeza,
posso dizer que vivi como um homem
mas o tempo que me resta para viver
e aquilo que pode acontecer-me
quem sabe?
Nazim Hikmet
não voltei mais à minha cidade natal
não gosto de regressos.
Com a idade de três anos, em Alep fiz profissão de neto de paxá,
com dezanove anos, de estudante na universidade comunista de Moscovo,
com quarenta e nove anos em Moscovo
de convidado do Comité Central,
e desde os catorze anos que exerço a profissão de poeta...
Há pessoas que conhecem todas as espécies de ervas,
outras as de peixes,
eu as das separações.
Há pessoas
que podem citar de cor
os nomes das estrelas,
eu os das nostalgias.
Dormi em prisões e também em grande hotéis.
Conheci a fome e também a greve da fome
e não existe manjar que eu não tenha provado.
Aos trinta anos quiseram enforcar-me.
Aos quarenta e oito anos quseram dar-me o Prémio mundial da PAZ
e deram-mo.
No ano em que fiz trinta e seis anos percorri durante seis meses
quatro metros quadrados de betão.
Aos cinquenta e nove anos voei de Praga até Havana em dezoito horas.
Nunca vi Lenine mas montei guarda junto do seu catafalco em 1924.
Em 1961 o mausoléu que visito são os livros.
Tentaram separar-me do meu Partido
não conseguiram.
Não fiquei esmagado sob os ídolos caídos
em 1951 no mar em companhia de um camarada
caminhei para a morte.
Em 1912, com o coração destroçado, esperei a morte
durante quatro meses deitado de costas.
Tive um ciúme louco das mulheres que amei.
Nem Charlot eu invejei.
Enganei as minhas mulheres
mas nunca murmurei nas costas dos meus amigos.
Bebi sem me tornar um bêbado,
por felicidade, sempre ganhei o pão com o suor do meu rosto.
Se menti foi por ter sentido vergonha por outrem,
menti para não prejudicar terceiros,
mas também menti sem razão.
Tomei o comboio, o avião, o automóvel,
a maior parte das pessoas não pode tomá-los.
Fui à Ópera
a maior parte das pessoas não pode lá ir e até ignora o nome.
Mas onde vai a maior parte das pessoas, desde 1921 que lá não vou:
à mesquita, à igreja, à sinagoga, ao templo, ao feiticeiro,
mas li algumas vezes nas borras do café.
Estou traduzido em trinta ou quarenta línguas
mas na Turquia estou proibido na minha própria língua.
Não tive cancro até à presente data,
também não era obrigatório.
Não serei primeiro-ministro et
cétera
nem tenho prazer nenhum nesse tipo de trabalho.
Também não estive na guerra
não corri noite cerrada para dentro dos abrigos
nem me vi
pelos caminhos
sob aviões a descerem a pique
mas quase aos sessenta anos enamorei-me.
Para ser breve, camaradas,
hoje aqui em Berlim, embora morrendo de tristeza,
posso dizer que vivi como um homem
mas o tempo que me resta para viver
e aquilo que pode acontecer-me
quem sabe?
Nazim Hikmet
Tuesday, 3 November 2020
AO ROSTO VULGAR DOS DIAS
Monstros e homens lado a lado,
não à margem, mas na própria vida.
Absurdos monstros que circulam
quase honestamente.
Homens atormentados, divididos, fracos.
Homens fortes, unidos, temperados.
*
Ao rosto vulgar dos dias,
à vida cada vez mais corrente,
as imagens regressam já experimentadas,
quotidianas, razoáveis, surpreendentes.
*
Imaginar, primeiro, é ver.
Imaginar é conhecer, portanto agir.
Alexandre O'Neill
Sunday, 1 November 2020
SE...
Se é possível conservar a juventude
respitando abraçado a um marco do correio;
Se a dentadura postiça se voltou contra a pobre senhora
e a mordeu deixando-a em estado grave;
Se ao descer do avião a Duquesa do Quente
pôs marfim a sorrir;
Se Baú-Cheio tem acções nas minas de esterco;
Se na América um jovem de cem anos
veio de longe ver o Presidente
a cavalo na mãe;
Se um bode recebe o próprio peso em aspirina
e a oferece aos hospitais do seu país;
Se o engenheiro sempre não era engenheiro
e a rapariga ficou com uma engenhoca nos braços;
Se, reentrante, protuberante, perturbante,
Lola domina ainda os portugueses;
Se o Jorge (o «ponto do Jorge!) tentou beber naquela noite
o presunto de Chaves por uma palhinha
e o Eduardo não lhe ficou atrás
ao sair com a lagosta pela trela;
Se «ninguém me ama porque tenho mau hálito
e reviro os olhos como uma parva»;
Se a Mimi Travessuras já não vem a Lisboa
cantar com o Alberto...
... Acaso o nosso destino, tac!, vai mudar?
Alexandre O'Neill
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