Tuesday, 6 August 2019
O Teu Riso
Tira-me o pão, se quiseres,
tira-me o ar, mas
não me tires o teu riso.
Não me tires a rosa,
a flor de espiga que desfias,
a água que de súbito
jorra na tua alegria,
a repentina onda
de prata que em ti nasce.
A minha luta é dura e regresso
por vezes com os olhos
cansados de terem visto
a terra que não muda,
mas quando o teu riso entra
sobe ao céu à minha procura
e abre-me todas
as portas da vida.
Meu amor, na hora
mais obscura desfia
o teu riso, e se de súbito
vires que o meu sangue mancha
as pedras da rua,
ri, porque o teu riso será para as minhas mãos
como uma espada fresca.
Perto do mar no outono,
o teu riso deve erguer
a sua cascata de espuma,
e na primavera, amor,
quero o teu riso como
a flor que eu esperava,
a flor azul, a rosa
da minha pátria sonora.
Ri-te da noite,
do dia, da lua,
ri-te das ruas
curvas da ilha,
ri-te deste rapaz
desajeitado que te ama,
mas quando abro
os olhos e os fecho,
quando os meus passos se forem,
quando os meus passos voltarem,
nega-me o pão, o ar,
a luz, a primavera,
mas o teu riso nunca
porque sem ele morreria.
Pablo Neruda,
in "Poemas de Amor"
Saturday, 3 August 2019
O Pai
Terra de semente inculta e bravia,
terra onde não há esteiros ou caminhos,
sob o sol minha vida se alonga e estremece.
Pai, nada podem teus olhos doces,
como nada puderam as estrelas
que me abrasam os olhos e as faces.
Escureceu-me a vista o mal de amor
e na doce fonte do meu sonho
outra fonte tremida se reflecte.
Depois... Pergunta a Deus porque me deram
o que me deram e porque depois
conheci a solidão do céu e da terra.
Olha, minha juventude foi um puro
botão que ficou por rebentar e perde
a sua doçura de seiva e de sangue.
O sol que cai e cai eternamente
cansou-se de a beijar... E o outono.
Pai, nada podem teus olhos doces.
Escutarei de noite as tuas palavras:
... menino, meu menino...
E na noite imensa
com as feridas de ambos seguirei.
Pablo Neruda
Thursday, 1 August 2019
Amo-te sem saber como
Não te amo como se fosses rosa de sal, topázio
ou seta de cravos que propagam o fogo:
amo-te como se amam certas coisas obscuras,
secretamente, entre a sombra e a alma.
Amo-te como a planta que não floriu e tem
dentro de si, escondida, a luz das flores,
e, graças ao teu amor, vive obscuro em meu corpo
o denso aroma que subiu da terra.
Amo-te sem saber como, nem quando, nem onde,
amo-te directamente sem problemas nem orgulho:
amo-te assim porque não sei amar de outra maneira,
a não ser deste modo em que nem eu sou nem tu és,
tão perto que a tua mão no meu peito é minha,
tão perto que os teus olhos se fecham com meu sono.
Pablo Neruda,
in "Cem Sonetos de Amor"
Tuesday, 30 July 2019
**
Tudo o que é ingénuo, simples e espontâneo
se entrega por inteiro à terra prometida,
como verso puro, magnânimo,
onde se enlaça apaixonada a vida
e onde a morte não liberta
os seres do corpo duro da lembrança.
Onde tudo é ingénuo, há esperança
no imaginário oculto que desperta.
E as almas são a porta aberta
ao fundo princípio da incerteza
do rasto luminoso da beleza
que nos guia ao lugar fecundo
onde cada ser é o mundo
e sua promessa de grandeza.
Carlos Carranca
Saturday, 27 July 2019
Memória Ausente
O que me aflige é esta inconsciência em que vivo de mim próprio,
esta infinita distância em que me acho e a que chamo eu.
Eu, memória de mim que não vivi.
Eu, eternidade sem tempo.
Eu, filho de mim próprio de tanto imaginar.
Eu, vontade de ser identidade que se assombra.
Eu, fealdade e beleza.
Eu, filho pródigo do Homem.
Carlos Carranca
Wednesday, 24 July 2019
MAR
É deste mar iniciático e limpo
que alcanço outra lonjura.
Acho - me nas ondas onde brinco
infante, no dorso da aventura.
Sempre fui assim
dum tempo inominado,
sem princípio nem fim,
nem futuro, nem passado.
Só meu, como um brinquedo
que se guarda e esconde
p'ra que ninguém o veja,
dentro de mim, o medo.
Esse lugar onde
não há uma força maior que o proteja.
Carlos Carranca
Sunday, 21 July 2019
DEUS NO SEU LUGAR
Eu moro num lugar
remoto, primitivo,
onde algumas casas
lembram rústicos palácios
e outras casebres roídos pela fome.
É Deus o ponto de partida,
o cenário, a voz, a própria vida,
a sua não - existência consentida
apregoando um cepticismo inquieto,
cansado de dogmas e de ritos.
Inútil e perfeito
vive na ausência
de ser único,
colectivo
testemunho da fé elementar.
Carlos Carranca
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