Wednesday, 6 February 2019

do fogo


a mais bela igreja é a que arde
e o mais belo fogo é o das asas dos corvos
da imaginação
que nos libertam da luz bíblica que nos ofusca.
a regra mais inflexível é a que não se aplica
e o tempo só nos esgota porque não se volta atrás.
o caminho é de lava apesar de escuro
e quem não sente caminha descalço,
os loucos porém seguirão no dorso de cavalos alados
voando no ar de cinzas até ao mar onde repousam mortos
os lúcidos.
 
VL

Sunday, 3 February 2019

alma


fechei na palma da mão uma concha
com o murmúrio do mar em ondas
de chamas.

beijou-me a face salgada o vento
enquanto da concha a todo o custo
tenta fugir a minha alma em fumo negro.

refém de um búzio na  mão fechada
dentro de uma espiral com cores de interferência.

é uma espécie de caranguejo-eremita em habitação indesejada.

lá fora, o mar e o céu. a liberdade além do mar, além do céu, além de tudo.
além das flores, do chão, do prado e do vulcão. lá fora, a liberdade, além da praia, do caixão,
além das pedras, das árvores, da fruta de verão.

lá fora, as cidades, e algumas crianças, escutam o sussurro do mar
que sou eu preso dentro de um búzio na minha mão.

VL

Friday, 1 February 2019

espírito


se alguma coisa levo deste mundo
é a memória falsa suave de um sonho
em que as palavras me não faltam
e definem sem hesitação a própria verdade
à imagem do que vejo como sou.

falsas imagens de um poema que me surge
como fantasma, ou como o cheiro de aguardente,
que fugaz nos abandona,
um espírito que nos habita mas não existe.

e entre as palavras, somos apenas homens,
que é como ser humano entre deuses.

VL

Wednesday, 30 January 2019

queda


pássaro loucura
em chamas de beleza
em voo queda
para onde me levas
corta a corda que nos prende
e cai sem mim.

VL

Sunday, 27 January 2019

sem título


dias de chuva chovem na alma
dos homens que têm por dentro 
uma porção de céu.
 
VL

Thursday, 24 January 2019

sem título


haja rios torrentes e folhas ao vento
caindo do outono vermelhas
e frio por dentro das almas
como ramos despidos de árvores
de braços estendidos.

são retratos de impressões dos tempos
que se tornam ecos
como outonos são passado no inverno
no verão futuro.

VL

Monday, 21 January 2019

sem título


às vezes surge-nos uma fixação estética pela morte 
uma espécie de vórtice negro que puxa a pele dos poetas,
isso é razoável, a arte e a morte são os desígnios finais da humanidade,
um por desejo, outro por força da circunstância.
 
VL