Monday, 18 December 2017
NATAL À BEIRA-RIO
É o braço do abeto a bater na vidraça?
E o ponteiro pequeno a caminho da meta!
Cala-te, vento velho! É o Natal que passa,
a trazer-me da água a infância ressurrecta.
Da casa onde nasci via-se perto o rio.
Tão novos os meus Pais, tão novos no passado!
E o Menino nascia a bordo de um navio
que ficava, no cais, à noite iluminado...
Ó noite de Natal, que travo a maresia!
Depois fui não sei quem que se perdeu na terra.
E quanto mais na terra a terra me envolvia
mais da terra fazia o norte de quem erra.
Vem tu, Poesia, vem, agora conduzir-me
à beira desse cais onde Jesus nascia...
Serei dos que afinal, errando em terra firme,
precisam de Jesus, de Mar, ou de Poesia?
David Mourão-Ferreira
Friday, 15 December 2017
CANÇÃO DO MILICIANO RECÉM-CASADO
(Dorme, meu amor, dorme,
o meu coração vela
junto à tua cama.
Nazim Hikmet)
Aqui é a solidão
a noite espessa
do campo;
é a intempérie,
o silêncio
que amparam
a minha arma e o meu sangue
E em tudo isto, meu amor,
estão as tuas coisas
falando-me, risonhas,
como se não te tivesse deixado na cama
nua entre os lençóis,
com um livro nas mãos.
Em pequeno
(não sabes?)
gostava
de ir até ao rio,
deambular
atrás dos animais assustados
medir com um suspiro
as altas copas das árvores
no monte.
Os meus olhos não chegavam
para tantas paisagens de verdor e pureza.
O meu pai
(lembro-me bem)
ensinou-me
que dá forças ao homem
a frescura do orvalho da manhã,
que as estrelas
são amigas
dos namorados e dos pobres.
Talvez
por tanto apego às coisas simples,
nesta noite de Junho
enquanto espero
quem me renda,
sinto-me bem, muito bem.
Às vezes,
no entanto,
domina-me a ansiedade
e ponho-me a cantar
para ti
- quase sem palavras,
quase sem voz -
as ingénuas canções do povo.
Já se aproxima a aurora.
A sua luz pequena
entrará pela gelosia até ao teu sono,
para te abrir as pálpebras
como todos os dias.
Às 8,
de novo,
na fábrica, tu
- miliciana e esposa -
encherás cada instante
de esforços, de beleza e pombas.
(Comove-me
evocar-te
no teu posto, serena,
com a boina ao lado e o teu sorriso
de rapariga que aprende a ser feliz)
Agora,
dorme tranquila.
Não duvides, amor:
eu estou bem,
sobretudo
pensando que descansas e me esperas.
Os teus olhos, as tuas palavras, a tua alegria,
as tuas mãos de manhã.
Adolfo Menéndez Alberdi
o meu coração vela
junto à tua cama.
Nazim Hikmet)
Aqui é a solidão
a noite espessa
do campo;
é a intempérie,
o silêncio
que amparam
a minha arma e o meu sangue
E em tudo isto, meu amor,
estão as tuas coisas
falando-me, risonhas,
como se não te tivesse deixado na cama
nua entre os lençóis,
com um livro nas mãos.
Em pequeno
(não sabes?)
gostava
de ir até ao rio,
deambular
atrás dos animais assustados
medir com um suspiro
as altas copas das árvores
no monte.
Os meus olhos não chegavam
para tantas paisagens de verdor e pureza.
O meu pai
(lembro-me bem)
ensinou-me
que dá forças ao homem
a frescura do orvalho da manhã,
que as estrelas
são amigas
dos namorados e dos pobres.
Talvez
por tanto apego às coisas simples,
nesta noite de Junho
enquanto espero
quem me renda,
sinto-me bem, muito bem.
Às vezes,
no entanto,
domina-me a ansiedade
e ponho-me a cantar
para ti
- quase sem palavras,
quase sem voz -
as ingénuas canções do povo.
Já se aproxima a aurora.
A sua luz pequena
entrará pela gelosia até ao teu sono,
para te abrir as pálpebras
como todos os dias.
Às 8,
de novo,
na fábrica, tu
- miliciana e esposa -
encherás cada instante
de esforços, de beleza e pombas.
(Comove-me
evocar-te
no teu posto, serena,
com a boina ao lado e o teu sorriso
de rapariga que aprende a ser feliz)
Agora,
dorme tranquila.
Não duvides, amor:
eu estou bem,
sobretudo
pensando que descansas e me esperas.
Os teus olhos, as tuas palavras, a tua alegria,
as tuas mãos de manhã.
Adolfo Menéndez Alberdi
Tuesday, 12 December 2017
NATAL UP-TO-DATE
Em vez da consoada há um baile de máscaras
Na filial do Banco erigiu-se um Presépio
Todos estes pastores são jovens tecnocratas
que usarão dominó já na próxima década
Chega o rei do petróleo a fingir de Rei Mago
Chega o rei do barulho e conserva-se mudo
enquanto se não sabe ao certo o resultado
dos que vêm sondar a reacção do público
Nas palhas do curral ocultam microfones
O lajedo em redor é de pedras da lua
Rainhas de beleza hão-de vir de helicóptero
e é provável até que se apresentem nuas
Eis que surge no céu a estrela prometida
Mas é para apontar mais um supermercado
onde se vende pão já transformado em cinza
para que o ritual seja muito mais rápido
Assim a noite passa. E passa tão depressa
que a meia-noite em vós nem se demora um pouco
Só Jesus no entanto é que não comparece
Só Jesus afinal não quer nada convosco
David Mourão-Ferreira
Saturday, 9 December 2017
DIVISA
Olhos, olhai em frente!
É convencer-se a gente
de que tudo o que fica para trás
serve, apenas, de ponto de partida
e nada mais!
São ruínas e as ruínas
lembram as coisas que foram
e já não são.
Mas em frente
há a vastidão inculta e inabitada,
a vastidão que espera e que deseja
alguém.
Em frente!... O que não é
mas que vai ser
por nossas mãos!
Olhos, olhai em frente!
Atrás de nós
há Sodomas inúteis
e Gomorras em brasa!
Álvaro Feijó
É convencer-se a gente
de que tudo o que fica para trás
serve, apenas, de ponto de partida
e nada mais!
São ruínas e as ruínas
lembram as coisas que foram
e já não são.
Mas em frente
há a vastidão inculta e inabitada,
a vastidão que espera e que deseja
alguém.
Em frente!... O que não é
mas que vai ser
por nossas mãos!
Olhos, olhai em frente!
Atrás de nós
há Sodomas inúteis
e Gomorras em brasa!
Álvaro Feijó
Wednesday, 6 December 2017
NA TAL
Na tal habitação volto a falar-te
Na tal que já eu-próprio não conheço
Na tal que mais que tálamo era berço
Na tal em que de noite nunca é tarde
Na tal de que por fim ninguém se evade
Na tal a que sei bem que não regresso
Na tal que umbilical cabe num verso
Na tal sem universo que a iguale
Na tal habitação te vou falando
Na tal como quem joga às escondidas
Na tal a ver se tu me dizes qual
Na tal de que eu herdei só este canto
Na tal que para sempre está perdida
Na tal em que o natal era Natal.
David Mourão-Ferreira
Sunday, 3 December 2017
A United Fruit Co.
Quando soou a trombeta, estava
tudo preparado na terra
e Jeová repartiu o mundo
entre a Coca-Cola Inc., a Anaconda,
a Ford Motors e outras entidades:
a Compañia Frutera Inc.
reservou para si o mais suculento,
a costa central da minha terra,
a doce cintura da América.
Baptizou de novo as suas terras
como «Repúblicas das Bananas»
e sobre os mortos adormecidos,
sobre os heróis inquietos
que conquistaram a grandeza,
a liberdade e as bandeiras,
estabeleceu a ópera bufa:
alienou os arbítrios,
ofereceu coroas de césar,
desembainhou a inveja, atraíu
a ditadura das moscas,
moscas Trujillo, moscas Tachos,
moscas Carias, moscas Martinez,
moscas Ubico, moscas húmidas
de sangue humilde e melaço,
moscas bêbedas que zumbem
por cima das campas populares,
moscas de circo, sábias moscas
entendidas em tirania.
Entre as moscas sanguinárias
a Frutera desembarca,
nivelando o café e as frutas
nos seus barcos que deslizarão
como bandejas o tesouro
das nossas terras submersas.
Entretanto, pelos abismos
açucarados dos portos,
caíam índios sepultados
no vapor da manhã:
um corpo roda, uma coisa
sem nome, um número caído,
uma raiz de fruta morta
derramada no monturo.
Pablo Neruda
tudo preparado na terra
e Jeová repartiu o mundo
entre a Coca-Cola Inc., a Anaconda,
a Ford Motors e outras entidades:
a Compañia Frutera Inc.
reservou para si o mais suculento,
a costa central da minha terra,
a doce cintura da América.
Baptizou de novo as suas terras
como «Repúblicas das Bananas»
e sobre os mortos adormecidos,
sobre os heróis inquietos
que conquistaram a grandeza,
a liberdade e as bandeiras,
estabeleceu a ópera bufa:
alienou os arbítrios,
ofereceu coroas de césar,
desembainhou a inveja, atraíu
a ditadura das moscas,
moscas Trujillo, moscas Tachos,
moscas Carias, moscas Martinez,
moscas Ubico, moscas húmidas
de sangue humilde e melaço,
moscas bêbedas que zumbem
por cima das campas populares,
moscas de circo, sábias moscas
entendidas em tirania.
Entre as moscas sanguinárias
a Frutera desembarca,
nivelando o café e as frutas
nos seus barcos que deslizarão
como bandejas o tesouro
das nossas terras submersas.
Entretanto, pelos abismos
açucarados dos portos,
caíam índios sepultados
no vapor da manhã:
um corpo roda, uma coisa
sem nome, um número caído,
uma raiz de fruta morta
derramada no monturo.
Pablo Neruda
Friday, 1 December 2017
NATAL
Um Deus à nossa medida...
A fé sempre apetecida
de ver nascer um menino
divino
e habitual.
A transcendência à lareira
a receber da fogueira
calor sobrenatural.
Miguel Torga
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