Monday, 21 March 2016

Pauta

O que do intento à acção
for capaz de se mover,
com mais ou menos alarde,
soberba, ou despretensão,
sem a prudência o tolher,
sem a consciência perder,
podem-lhe os joelhos tremer,
podem-lhe os dentes bater.
O que não é é cobarde.

Armindo Rodrigues

Friday, 18 March 2016

Expulso, e com razão


Eu cresci como filho
de gente abastada. Os meus pais puseram-me
um colarinho ao pescoço e criaram-me
nos costumes de ser servido
e ensinaram-me a arte de mandar. Mas
quando era já crescido e olhei à minha roda,
não me agradou a gente da minha classe,
nem o mandar nem o ser servido.
E eu abandonei a minha classe e juntei-me
à gente pequena.

Assim
criaram eles um traidor, educaram-no
nas suas artes, e ele
atraiçoa-os ao inimigo.

Sim, eu divulgo segredos. Entre o povo
estou eu e explico
como eles enganam, e predigo o que vai vir, pois eu
estou iniciado nos seus planos.
O latim dos seus padres corruptos
traduzo-o palavra a palavra para a língua comum,
e então se descobre que é tudo pantomina.
A balança da sua justiça
tiro-a para baixo e mostro
os pesos falsos. E os seus informadores vão dizer-lhes
que eu estou com os roubados quando conjuram
a revolta.

Admoestaram-me e tiraram-me
o que ganhei com o meu trabalho. E quando eu não melhorei,
deram-me caça.
Porém
já só havia escritos em minha casa, que descobriam
os seus conluios contra o povo.
E assim
perseguiram-me com um mandato de captura
que me acusava de opiniões baixas, isto é
de opiniões dos de baixo.

Aonde chego, fico marcado
para todos os possidentes,
mas os que nada têm lêem o mandato e
dão-me abrigo.
«A ti» - ouço eu dizer -
«expulsaram-te eles, e
com razão».

Brecht

Tuesday, 15 March 2016

ARRANCA DA CABEÇA O PENSAMENTO...

Arranca da cabeça o pensamento,
esvazia o coração de simpatia,
e, morto, viverás com alegria,
neste triste lugar, neste momento.
Mas se a isto preferes o tormento
de uma luta constante, amarga e fria,
da tua noite romperá o dia
em que à afronta a levará o vento.
Não te importe se à voz te não responde
sempre outra voz ardente como a tua,
nem te importe sequer porque se esconde.
Crê só que no silêncio a raiva estua,
e amanhã, sem saberes como e donde,
ela virá bradar em cada rua.

Armindo Rodrigues

Saturday, 12 March 2016

Elegia por antecipação à minha morte tranquila



Vem, morte, quando vieres.
Onde as leis são vis, ou tontas,
não és tu que me amedrontas.
Troquei por penas prazeres.
Troquei por confiança afrontas.
Tenho sempre as contas prontas.
Vem, morte quando quiseres.

Armindo Rodrigues

A morte veio no dia 8 de Agosto de 1993.
O POETA tinha «as contas prontas».

Wednesday, 9 March 2016

IDEIAS BOAS OU MÁS

Ideias boas ou más,
actos maus ou actos bons,
é a vida quem os faz,
ou são os seus próprios dons?
A quem negue a liberdade
vá-se ao extremo de a impor.
Não é com meia verdade
que uma verdade dá flor.
E não se tenha receio
de perder para ganhar.
A liberdade é um meio
de a vida se libertar.

Armindo Rodrigues

Sunday, 6 March 2016

Prisão de Caxias, 1949


Como fantasmas, sem repouso,
no corredor andam os guardas,
de pistola à cinta, dia e noite.
Nuvens vazias lhes pesam.
Um vinho azedo os corrompe.
O corredor é longo e estreito.
longo e sujo,
longo e escuro.
Do tecto baixo as lâmpadas exaustas
dir-se-ia que de remorsos lhe põem mais sombras
na atmosfera sombria de remorso.
Só nas salas, fechados, os presos falam,
os presos riem,
os presos cantam.
Não há remorso na lembrança deles.
Na desgraça deles não há remorso.
O remorso ficou lá fora,
no corredor onde andam os guardas,
de pistola à cinta, dia e noite,
a manchar de vergonha a vida
e a fazer nojo aos escarradores
alinhados contra a parede.
O remorso ficou lá fora,
na felicidade e na cobardia
dos que se alheiam do combate.

Na minha sala há treze presos.
Treze são as salas que dão
para o corredor onde andam os guardas,
de pistola à cinta, dia e noite.
Maldita seja a maldição
com que à honra se responde.
Cada sala tem uma janela
que nem finge de fingimento,
porque além da barreira das grades
em frente um talude nos cobre
a despreocupação de ave
do horizonte desdobrado,
e lá fora andam outros guardas,
de carabina ao ombro, dia e noite.

Na minha sala há treze presos,
com treze protestos erguidos,
mas erguida uma só bandeira.
São criminosos de querer,
num tempo torpe de prisões,
as torpes prisões arrasadas.
Os outros presos, nas outras salas,
sangram das mesmas feridas,
ardem de desejo igual.
Estão aqui presos, mas são livres,
porque neles a justiça
sopra como os vendavais.
A prisão ficou lá fora,
nos felizes e nos cobardes.

Armindo Rodrigues

Thursday, 3 March 2016

NA MINHA COURELA...

Na minha courela, enquanto a lavro,
é sempre manhã, mesmo se já noite.
O meu ofício farto
é o de cultivar sonhos.
Deito trigo à terra e nasce-me luz.
Deito luz à terra e nasce-me trigo.
Nem há mais exacta semente que esta,
que dá a colheita ao sabor da fome.

Armindo Rodrigues