Friday, 6 December 2013

QUEM...


Quem tem a consciência para ter coragem
Quem tem a força de saber que existe
e no centro da própria engrenagem
inventa a contra-mola que resiste

Quem não vacila mesmo derrotado
Quem já perdido nunca desespera
e envolto em tempestade decepado
entre os dentes segura a primavera.

João Apolinário

Tuesday, 3 December 2013

NÃO DIREI

Não direi maçãs rosadas,
nem limões, nem laranjas.

Direi que me gela
o sangue nas mãos
e me enoja viver neste tempo
e neste país.

Não direi maçãs rosadas,
nem limões, nem laranjas;
Gritarei ainda mais alto
e lutarei pela nossa liberdade.

Carles-Jordi Guardiola
(In Poetas Catalães de Hoje)

Sunday, 1 December 2013

PASOLINI


Por três vezes - com dois poemas do Autor e um fotograma do filme Teorema - o Cravo de Abril recordou essa figura maior da cultura italiana (e europeia) que foi Pier Paolo Pasolini.

Hoje, partilhamos com os nossos visitantes parte da intervenção proferida por Pasolini no comício realizado no Verão de 1974, em Milão, no decorrer da Festa do Unitá (então órgão central do então Partido Comunista Italiano).

«Eis a angústia de um homem da minha geração, que viveu a guerra, os nazis, as SS, de que sofreu um traumatismo nunca totalmente vencido.
Quando vejo à minha volta os jovens que estão perdendo os antigos valores populares e absorvem os novos modelos impostos pelo capitalismo, arriscando assim uma forma de desumanidade, uma forma de afasia atroz, uma brutal ausência de capacidade crítica, uma facciosa passividade, recordo que estas eram precisamente as formas típicas das SS: e vejo assim estender-se sobre as nossas cidades a sombra horrenda da cruz gamada.
Uma visão apocalíptica, certamente, a minha.
Mas se ao lado dela e da angústia que a produz, não existisse em mim, também, um elemento de optimismo, isto é, o pensamento de que existe a possibilidade de lutar contra tudo isto, simplesmente eu não estaria aqui, convosco, a falar».

Fernando Samuel

Comentário no blogue:
Se não se importam, sento-me aqui neste lugar vago desta mesa redonda dirigida por Pasolini - que, há 34 anos, via o desenrolar sombrio das coisas, a sua evolução previsível, os perigos que nos espreitavam... E via o mais importante: com a luta é possível alterar o rumo dessas coisas, e nós estamos cá para lutar sejam quais forem as circunstâncias...

(melhor do que isto, seria se esta mesa redonda não fosse virtual e se concretizasse... sei lá, em casa de um de nós, por exemplo, com uns comes e bebes a participar na conversa: um queijo lá de cima, da Serra, um panito alentejano, um vinho especial ali de Palmela, uns pastéis de Belém, uma Trança de Espinho, etc, etc...)

Saturday, 30 November 2013

E AGORA DIREI


E agora direi,
como homem do povo,
o que quer
a gente do meu país:

queremos a liberdade.

Queremos que esta nossa terra
se acalme na paz,
sem angústia ou medo,
sem roubos nem dor.
Queremos chegar ao segredo,
subir por veredas e caminhos
à terra prometida,
onde a alegria dos pássaros,
o perfume das flores
e o olhar de um amigo
se fundem finalmente.

E todos,
por um mesmo caminho,
debaixo da sombra compacta
das bandeiras e canções
avançaremos unidos:
os da velha Catalunha,
os d'além-mar,
e os do país valenciano.
E nos subúrbios
deste país nascente
levantaremos um novo templo
onde o homem catalão
se sentirá, apenas,
trabalhador do seu país.
Sentir-se-á seguro,
guiado pelos deuses
da justiça e do amor,
e oferecerá, se for preciso,
a vida da sua canção,
descalço sobre a terra,
de alfaia bem segura
na mão,
enquanto a voz
dos mortos em sacrifício
dirá
uma palavra de perdão.

Joan Colomines

Wednesday, 27 November 2013

UM RAIO DE SOL É A ESPERANÇA


Um raio de sol é a esperança
do prisioneiro, que passeia em silêncio
nas celas do subterrâneo;
um barco à vela o seu sonho;
as pancadas e gritos
que ecoam pelos muros,
o seu horror.
Se ninguém escrevesse tudo o que se sabe,
enchiam-se montanhas e montanhas
de justiças violadas,
dedos apontados, acusadores,
de violências e repressões organizadas.
Então talvez o mar atacasse a cidade
e as estradas ficariam cheias de lama, de sal,
e as verdades das nossas mãos afogariam,
assim se espera,
todos os carrascos.

Isidre Molas

Sunday, 24 November 2013

DIREMOS A VERDADE, SEM DESCANSO


Diremos a verdade, sem descanso,
pela honra de servir, sob os pés de todos.
Detestamos os grandes ventres, as grandes palavras,
a indecente ostentação do ouro,
as cartas mal distribuídas pela sorte,
o denso fumo do incenso a quem é potente.
Agora é a vil raça dos senhores,
agacha-se no seu ódio como um cão,
ladra de longe, ao pé usa cacete,
segue, para além da lama, caminhos de morte.

Com a canção construamos no escuro
altas paredes de sonho, defesa deste turbilhão.
Pela noite chega o rumor de muitas fontes:
estamos fechando as portas do medo.

Salvador Espriu

Thursday, 21 November 2013

23/6/1958

No dia 23 de Junho de 1958, cerca de trezentos operários agrícolas concentraram-se junto à Câmara Municipal de Montemor-o-Novo.
Tinham iniciado nesse dia uma greve que, para além da exigência de melhores salários, era um protesto assumido contra a fraude eleitoral que havia roubado a vitória ao candidato antifascista general Humberto Delgado nas «eleições» de 8 de Junho desse ano.

José Adelino dos Santos, operário agrícola de 46 anos de idade, era um dos presentes.
Numa altura em que falava com outros trabalhadores, de costas para o edifício da Câmara, foi atingido por um tiro, disparado do interior do edifício, e assassinado.
Não foi um tiro de acaso: foi um tiro dirigido: dirigido a José Adelino dos Santos.
Porquê a ele?

Militante do PCP desde o início dos anos 40, José Adelino dos Santos teve um papel destacado no desenvolvimento da organização do PCP no Concelho de Montemor-o-Novo. Ele era, desde a sua juventude, um corajoso lutador antifascista, um organizador da luta de todos os dias pela democracia, pela liberdade, pela justiça social.
Por isso, e pela sua postura fraterna e solidária, era altamente prestigiado junto dos seus companheiros de trabalho - e por tudo isso, ele era também um alvo permanente da PIDE.
Foi preso pela primeira vez, em 1945; e, pela segunda, em 1949 - e de ambas as vezes barbaramente torturado. Cumpriu um total de três anos de prisão.
Estas as razões pelas quais, naquele dia 23 de Junho de 1958 aquele tiro mortal foi dirigido José Adelino dos Santos.

Uma multidão de cinco mil pessoas - que a PIDE e a GNR tentaram inutilmente impedir de entrar no cemitério - acompanhou o corpo do militante comunista à sua última morada.

Hoje, precisamente no local onde, há 50 anos, foi assassinado pelo fascismo, José Adelino dos Santos foi homenageado pelos seus camaradas e amigos - uma homenagem que foi, ao mesmo tempo, a afirmação do compromisso de continuar a luta por ele travada: pela democracia, pela liberdade, pela justiça social, pelo socialismo e pelo comunismo.

Fernando Samuel