estava escuro, a noite vinha cobrindo o céu agora já só com as tintas do
fim da luz do dia. o jardim era um retrato da serenidade, ladeado pelo
bambu alto que projectava a escuridão para todo o largo interior. não
se vislumbrava nada, e do mestre apenas a cabeça redonda rapada se
destacava da veste negra que lhe cobria todo o corpo.
o hakama adivinhava-se apenas pelo volume. todo o jardim era o vazio e vazio o espaço e a noite.
o aprendiz, por favor, permanecia na dúvida sobre a existência do vazio.
principalmente sobre o seu verdadeiro valor, sobre as capacidades que
dele brotam. a ausência de vontade, a capacidade de fazer resultar a
ausência de vontade. "por vezes, o praticante acerta o alvo, mas
falha-se a si próprio..." palavras que não compreendia ainda, apesar de
ter já ultrapassado a barreira dos artifícios para o hanare. Era ainda
ele quem libertava a flecha e a sua vontade apontava ao alvo.
acreditava mas duvidava da real libertação, como que por respiração do
universo. ousado, na última noite antes de tornar à sua terra, o
aprendiz questiona o mestre sobre a verdade do tiro com arco. o mestre
não respondeu, como que ofendido. depois de meses de prática, depois de
correcções permanentes, a verdade porém é que o aprendiz não tinha facto
para provar o que lhe era ensinado como verdade. a libertação estava
escrita nos livros, e ouvia-se nas palavras do mestre. uma força
diferente vergava o yumi de bambu laminado, sem dúvida, mas a verdadeira
dimensão cósmica do tiro não passava ainda de uma racionalização
estética.
o aprendiz, por favor, um ocidental, lógico, via como belo o tiro
disparado, a flecha em voo e a fluidez do hikiwake mesmo quando o yumi
estava nas mãos de alguém que, na sua terra natal, teria idade para
viver num lar acamado.
o mestre, como que censurando a desconfiança, mas não resistindo em
mostrar a verdade, estendeu com a mão um pequeno e fino pau de incenso.
disse ao seu discípulo que o colocasse ao fundo do jardim, frente ao
pequeno alvo, no centro. caminhou no breu até lá, até ao fundo do jardim
quase tacteando com as pontas dos pés o caminho. acendeu o incenso,
fino, fumegante. e caminhou de novo até ao mestre, expectante.
silêncio. um ligeiro ranger do bambu do yumi, uma tensão involuntária arqueando aquela força.
hanare.
o pequeno fio de fumo do incenso agitou-se, sem que ninguém visse.
sem perceber ainda o que o mestre lhe mostrara, caminhou de novo até ao
fundo do jardim cinquenta longos passos e encontrou o alvo perfurado, o
incenso erecto cortado a metade. a ponta acesa fumegando lentamente no
chão.
Miguel Tiago