Monday, 18 June 2012

- vento -


o vento sopra as vidas que navegam o mar contra o horizonte claro,
um vento quente, um sopro com cheiro a primavera sempre,
como assim durassem as árvores floridas nas avenidas..

só esses ventos assim, de beijos esfuziantes, são capazes de encher o nosso peito.

Miguel Tiago

Friday, 15 June 2012

- sem título -


dilacerado.

Miguel Tiago

Tuesday, 12 June 2012

- sem título -


os teus olhos são uma tarde de verão com poucas nuvens.

Miguel Tiago

Saturday, 9 June 2012

aurora


no dorso o sol a pique,
mãos rasgando o chão para comer.
para viver, não pode levantar-se
o homem que nasceu para andar erguido.
foi vergado por quem nasceu
de espírito já partido,
sem coluna, verme protegido.

do chão emerge a vida de ambos,
a de um pelo trabalho de suas mãos, a do outro
pela fome de cada mão.

não percebe quem com seus braços sulca a terra
que assim sulca a história e escreve as linhas do futuro.
o sol um dia trará também essa aurora de fogo
(de libertação) e comerá apenas quem quiser amassar o pão.

Miguel Tiago

Wednesday, 6 June 2012

o mito segundo narciso


quando ela morreu, o mundo, infelizmente, não cessou. e os dias passavam 
agora penosos, eras a cada lua. na floresta onde caçavam, vagueava 
 inconscientemente, entorpecido. havia um vazio nos seus olhos que só viam 
saída nas lágrimas cheias que pendiam, permanentes.

quando ela morreu, o mundo, infelizmente, continuou. e ele, perdia a 
continuidade do seu ser, um pedaço de alma, como um pedaço da vida. 
 narciso arrastava os pés por entre as árvores. eco seguia-o sentindo a dor.
nas sombras oblíquas da floresta, por onde haviam passeado as musas nas 
horas matinais que se iam e por onde hades passearia nos instantes que se 
seguiam em busca de perséfone para se saciar, jazia um lago que reflectia o
céu por entre folhagens. quando caiu, debruçou-se, infinitamente triste sobre 
as águas espelhadas e serenas.
ali, mesmo ali, jazia a imagem gémea dela. não mais desviou seus olhos da 
água que chorava com ele. eco, bela, olhou seu corpo moribundo e chorou. 
no lugar onde narciso adorou a sua irmã, deixou uma flor que ali cresceu.
 
Miguel Tiago

Sunday, 3 June 2012

- sem título -


sábado, está uma chuva miudinha e um nevoeiro marinho. dentro de mim estaria um deslumbrante sol fosse outra a meteorologia.

partilho assim com o dia a translucência fosca e a escuridão.

Miguel Tiago

Friday, 1 June 2012

- sem título -


depois de incandescentes,
as letras e os versos são como homens,
não cristalizam.
pulsam e respiram.

sanguíneas e vivas.

Miguel Tiago