Tuesday, 18 October 2011
DEIXO AO MIGUEL AS COISAS DA MANHÃ
Deixo ao Miguel as coisas da manhã -
a luz (se não estiver já corrompida)
a caminho do sul,
o chão limpo das dunas desertas,
um verso onde os seixos são
de porcelana,
o ardor quase animal
de uma romã aberta.
Eugénio de Andrade
Saturday, 15 October 2011
Segunda «Poesia de Parede»
Meu filho, queres saber
porque recusei fazer o papel de paisagem
e não entrei no elenco
da farsa que houve aí de homenagem
a Ievtuchenko?
Primeiro: porque já estou velho para pagem.
Depois, porque quase chorei quando vi
que foram fotografá-lo
debaixo do galo
do S.N.I.
Ah! Ievtuchenko,
que pensarão das tuas fotografias
e desse galo torto
(que tão bem te define)
as raivas do coração fundo
dos presos de Caxias!
E Lenine?
Que pensará o camarada Lenine
que - sabias? -
até depois de morto
fez a revolução no outro mundo?
Conclusão, meu rapaz:
nunca queiras ser cartaz.
José Gomes Ferreira
(1967 - quando da vinda a Portugal do poeta soviético Ievtuchenko)
Wednesday, 12 October 2011
Poema
(E subiu ao Trono o primeiro Governo
da Contra-Revolução.)
E agora
que os gigantes do avesso
nos querem transformar em subgente?
Que nos resta? O recomeço
do frio das algemas
e os grilhões desumanos,
para voltar inutilmente
a escrever poemas
recusando-me outra vez a ter mais de vinte anos?
Que fazer agora,
se até o Sonho nos querem roubar?
Exigir talvez
ao sol que, todas as noites dorme na lua e chora
com melancolia,
ouse de súbito acordar
- para que brilhe sempre o Espanto da Haver um Eterno Dia.
José Gomes Ferreira
Sunday, 9 October 2011
Poema
(De um entrevista qualquer num jornal
inquiridor: «Mas estarão os comunistas
dispostos a aceitar o princípio da "alternância no poder"?»
«Democracia é alternância»
repetiu de novo a embalar tédio,
um senhor de sono espesso.
Como se fosse possível - ó glória! ó ânsia! -
construir um prédio,
mudando de vez em quando
os mesmos tijolos do avesso.
José Gomes Ferreira
Thursday, 6 October 2011
IDENTIFICAÇÃO
no seu mar de tormentas;
Gemem os remadores,
mordidos pelo beijo do chicote;
E tu, poeta, como um sacerdote
da bonança,
a conjurar o mal,
a pregar confiança,
a cantar,
a cantar,
sem nenhum desespero
te desesperar!
Sabe cada ternura a pão azedo,
os acenos são ódios disfarçados;
E os teus versos, gratuitos, desfolhados
sobre as chagas da vida
como pensos sagrados
de beleza calmante e condoída!
Que humanidade tens, irmão?
De onde te vem a força, a decisão,
e esse gosto de nunca desertar?
És o Cristo, talvez...
Um Cristo sem altar
que ficasse a lutar
junto de nós,
tão presente, real e natural,
que podemos ouvir-lhe a própria voz.
Miguel Torga
Monday, 3 October 2011
(Carta mental para o filho preso.)
Agora que estás sozinho,
chora com coragem de homem
o teu destino insubmisso,
a ouvir a chuva nas grades,
caída de olhos alheios.
Rumor frio
que tanto aquece os sonhos
e dá à morte
a intimidade adormecida dos seios.
José Gomes Ferreira
Saturday, 1 October 2011
(Outro edital.)
Não afoguem o inimigo em lágrimas
embrulhadas em algodão em rama.
Não odeiem
como que ama.
José Gomes Ferreira