Tuesday, 18 January 2011

TENHO UM IRMÃO SIAMÊS...




Tenho um irmão siamês
(Há quem tenha, mas o meu,
ligado à sola dos pés,
anda espalhado no chão,
todo mordido de raiva
de ser mais raso do que eu.)

Tenho um irmão siamês
(É a sombra, cão rafeiro,
vai à frente ou de viés,
conforme a luz e a feição,
de modo que sempre caiba
nos limites do ponteiro.)

Tenho um irmão siamês
(Minha morte antecipada,
já deitada,
à espera da minha vez.)


José Saramago

Saturday, 15 January 2011

Paisagem com figuras




Não há muito que ver nesta paisagem:
campinas alagadas, ramos nus
de choupos e salgueiros eriçados:
raízes descobertas que trocaram
o natural do chão pelo céu vazio.
Aqui damos as mãos e vamos indo
a romper nevoeiros.
Jardim do paraíso, obra nossa,
somos nós os primeiros.


José Saramago

Wednesday, 12 January 2011

Ao inferno, senhores...

Ao inferno, senhores, ao inferno do homem,
lá onde não fogueiras, mas desertos.
Vinde todos comigo, irmãos ou inimigos,
a ver se povoamos esta ausência
chamada solidão.
E tu, meu claro amor, nova palavra,
que a tua mão não deixe a minha mão.


José Saramago

Sunday, 9 January 2011

ALEGRIA



Já ouço gritos ao longe
já vem a voz do amor
Ó alegria do corpo
Ó esquecimento da dor

Já os ventos recolheram
já o Verão se nos oferece
Quantos frutos quantas fontes
Mais o Sol que nos aquece

Já colho jasmins e nardos
já tenho colares de rosas
E danço no meio da estrada
as danças prodigiosas

Já os sorrisos se dão
já se dão as voltas todas
Ó certeza ó certeza
Ó alegria das bodas


José Saramago

Thursday, 6 January 2011

Provavelmente

Provavelmente, o campo demarcado
não basta ao coração, nem o exalta:
provavelmente, o traço da fronteira
contra nós o riscámos, amputados.
Que rosto se desenha e se promete?
Que viagem esquecida nos aguarda?
São asas (que só duas fazem voo),
ou solitário arder da labareda?


José Saramago

Monday, 3 January 2011

Jogo do lenço




Trago no bolso do peito
um lenço de seda fina,
dobrado de certo jeito.
Não sei quem tanto lhe ensina
que quanto faz é bem feito.

Acena nas despedidas,
quando a voz já lá não chega
por distâncias desmedidas.
Depois, no bolso aconchega
as saudades permitidas.

Também o suor salgado,
às vezes, enxuto a medo,
que o lenço é mal empregado.
E quando me feri um dedo,
com ele o trouxe ligado.

Nunca mais chegava ao fim
se as graças todas dissesse
deste meu lenço e de mim,
mas uma coisa acontece
de que não sei porque sim:

Quando os meus olhos molhados
pedem auxílio do lenço,
são pedidos escusados.
E é bem por isso que penso
que os meus olhos, se molhados,
só se enxugam no teu lenço.


José Saramago

Saturday, 1 January 2011

BARALHO



Lanço na mesa as cartas de jogar:

os amores de cartão e as espadas,
os losangos vermelhos de ouro falso,
a trilobada folha que ameaça.
Caso e descaso as damas e os valetes.
Andam os reis pasmados nesta farsa.
E quando conto os pontos da derrota,
sai-me de lá a rir, como perdido,
na figura do bobo o meu retrato.


José Saramago