A Elionor tinha
catorze anos e três horas
quando começou a trabalhar.
Estas coisas ficam
registadas para sempre no sangue.
Ainda usava tranças
e dizia: «sim, senhor» e «boas tardes».
As pessoas gostavam dela,
da Elionor, tão meiga,
e ela cantava enquanto fazia correr a vassoura.
Os anos, porém, dentro da fábrica,
diluem-se no opaco
griséu das janelas,
e ao fim de pouco a Elionor não teria
sabido dizer de onde lhe vinha
a vontade chorar,
nem aquele irreprimível
aperto de solidão.
As mulheres diziam que aquilo
era porque estava a crescer e que aqueles males
se curavam com marido e filhos.
A Elionor, de acordo com a mui sábia
predição das mulheres,
cresceu, casou-se e teve três filhos.
O mais velho, que era uma rapariga,
só havia três horas
fizera os catorze anos
quando começou a trabalhar.
Ainda usava tranças
e dizia: «sim, senhor» e «boas tardes».
Miquel Marti I Pol
Saturday, 18 September 2010
Wednesday, 15 September 2010
MAS QUEM É O PARTIDO?
Mas quem é o Partido?
Está ele numa casa com telefones?
São secretos os seus pensamentos, incógnitas as suas decisões?
Quem é ele?
Nós somos ele.
Tu e eu e vós - nós todos.
Está metade no teu fato, camarada, e pensa dentro da tua cabeça.
Onde eu moro é a sua casa, e onde tu és atacado, aí luta ele.
Mostra-nos tu o caminho que devemos seguir, e nós
segui-lo-emos como tu, mas
não sigas sem nós o caminho exacto.
Sem nós é ele
o mais errado.
Não te afastes de nós!
Nós podemos errar, e tu podes ter razão, portanto
não te afastes de nós!
Que o caminho curto é melhor que o comprido, ninguém o nega.
Mas quando alguém o conhece
e não é capaz de no-lo mostrar, de que nos serve a sua sabedoria?
Sê sábio connosco!
Não te afastes de nós!
Brecht
Está ele numa casa com telefones?
São secretos os seus pensamentos, incógnitas as suas decisões?
Quem é ele?
Nós somos ele.
Tu e eu e vós - nós todos.
Está metade no teu fato, camarada, e pensa dentro da tua cabeça.
Onde eu moro é a sua casa, e onde tu és atacado, aí luta ele.
Mostra-nos tu o caminho que devemos seguir, e nós
segui-lo-emos como tu, mas
não sigas sem nós o caminho exacto.
Sem nós é ele
o mais errado.
Não te afastes de nós!
Nós podemos errar, e tu podes ter razão, portanto
não te afastes de nós!
Que o caminho curto é melhor que o comprido, ninguém o nega.
Mas quando alguém o conhece
e não é capaz de no-lo mostrar, de que nos serve a sua sabedoria?
Sê sábio connosco!
Não te afastes de nós!
Brecht
Sunday, 12 September 2010
NÃO ME PEÇAM RAZÕES
Não me peçam razões, que não as tenho,
ou darei quantas queiram: bem sabemos
que razões são palavras, todas nascem
da mansa hipocrisia que aprendemos.
Não me peçam razões por que se entenda
a força de maré que me enche o peito,
este estar mal no mundo e nesta lei:
não fiz a lei e o mundo não o aceito.
Não me peçam razões, ou que as desculpe,
deste modo de amar e destruir:
quando a noite é de mais é que amanhece
a cor de primavera que há-de vir.
José Saramago
ou darei quantas queiram: bem sabemos
que razões são palavras, todas nascem
da mansa hipocrisia que aprendemos.
Não me peçam razões por que se entenda
a força de maré que me enche o peito,
este estar mal no mundo e nesta lei:
não fiz a lei e o mundo não o aceito.
Não me peçam razões, ou que as desculpe,
deste modo de amar e destruir:
quando a noite é de mais é que amanhece
a cor de primavera que há-de vir.
José Saramago
Thursday, 9 September 2010
DA SEMÂNTICA
Recentemente
na fábrica
melhoraram muito as relações humanas.
Agora, por exemplo,
ao tirar-se o prémio semanal
a uma operária,
por uma mistura de fios,
por exemplo,
ou por qualquer acto menor de indisciplina,
já não se diz impor um castigo;
diz-se:
estimular o sentido
da responsabilidade.
Miquel Martí I Pol
na fábrica
melhoraram muito as relações humanas.
Agora, por exemplo,
ao tirar-se o prémio semanal
a uma operária,
por uma mistura de fios,
por exemplo,
ou por qualquer acto menor de indisciplina,
já não se diz impor um castigo;
diz-se:
estimular o sentido
da responsabilidade.
Miquel Martí I Pol
Monday, 6 September 2010
HOMEM COM MÁQUINA
Estes homens que estão junto das máquinas
Estes homens que trabalham por causa das máquinas
Estes homens que choram por causa das máquinas
Estes homens que não vivem por causa das máquinas
Estes homens que morrem por causa das máquinas
Estes homens que não sabem a razão das máquinas
Estes homens que só sabem o preço das máquinas
Estes homens, quando chegar a hora, serão máquinas
Joaquim Horta
Friday, 3 September 2010
VIAGEM ATRAVÉS DA FESTA
Reivindicamos a alegria.
Reivindicamos as canções de liberdade.
Reivindicamos a música ordenadora do universo.
Reivindicamos as mãos dadas dos amantes.
Reivindicamos o sabor descoberto de todas as coisas.
Reivindicamos as pontes tranquilas.
Reivindicamos a invenção das cidades habitáveis.
Reivindicamos a palavra, o poema, o livro.
Reivindicamos a festa.
Reivindicamos esta arma.
Mário Castrim
(In «Viagens»)
Reivindicamos as canções de liberdade.
Reivindicamos a música ordenadora do universo.
Reivindicamos as mãos dadas dos amantes.
Reivindicamos o sabor descoberto de todas as coisas.
Reivindicamos as pontes tranquilas.
Reivindicamos a invenção das cidades habitáveis.
Reivindicamos a palavra, o poema, o livro.
Reivindicamos a festa.
Reivindicamos esta arma.
Mário Castrim
(In «Viagens»)
Wednesday, 1 September 2010
QUERO FALAR DOS HERÓIS
Quero falar dos heróis
que fazem o edifício, dos homens
quero falar mas não para dizer
que são heróis mas para os citar
e pôr aqui uns com os outros
e comigo e com todos
o que semeia a cana,
o que a corta,
o que a carrega,
e que a leva de um lado para o outro
de camião, de carroça, de vagão,
o que enche a balança,
o que nutre a esteira,
o que alimenta os moínhos,
o que lubrifica as porcas,
o que trata dos fornos,
o que se ocupa do bagaço,
o que prepara a cal,
o cozinheiro,
o que vigia,
o que filtra a massa,
e que a clarifica,
o que controla a espessura com os dedos,
o que os enlouquece girando nas centrífugas,
o que dirige as operações
e todos os que ajudam estes homens
de uma forma ou de outra
- amando-os, citando-os.
David Chericián
(In Poesia Cubana da Revolução)
que fazem o edifício, dos homens
quero falar mas não para dizer
que são heróis mas para os citar
e pôr aqui uns com os outros
e comigo e com todos
o que semeia a cana,
o que a corta,
o que a carrega,
e que a leva de um lado para o outro
de camião, de carroça, de vagão,
o que enche a balança,
o que nutre a esteira,
o que alimenta os moínhos,
o que lubrifica as porcas,
o que trata dos fornos,
o que se ocupa do bagaço,
o que prepara a cal,
o cozinheiro,
o que vigia,
o que filtra a massa,
e que a clarifica,
o que controla a espessura com os dedos,
o que os enlouquece girando nas centrífugas,
o que dirige as operações
e todos os que ajudam estes homens
de uma forma ou de outra
- amando-os, citando-os.
David Chericián
(In Poesia Cubana da Revolução)
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