Friday, 30 January 2026

Meu amor, meu amor

 
Meu amor meu amor
meu corpo em movimento
minha voz à procura
do seu próprio lamento.
Meu limão de amargura meu punhal a escrever
nós parámos o tempo não sabemos morrer
e nascemos nascemos
do nosso entristecer.
Meu amor meu amor
meu nó e sofrimento
minha mó de ternura
minha nau de tormento
este mar não tem cura este céu não tem ar
nós parámos o vento não sabemos nadar
e morremos morremos
devagar devagar.
Ary dos Santos

Tuesday, 27 January 2026

Na mesa do Santo Ofício

 
Tu lhes dirás, meu amor, que nós não existimos.
Que nascemos da noite, das árvores, das nuvens.
Que viemos, amámos, pecámos e partimos
Como a água das chuvas.
Tu lhes dirás, meu amor, que ambos nos sorrimos
Do que dizem e pensam
E que a nossa aventura,
É no vento que passa que a ouvimos,
É no nosso silêncio que perdura.
Tu lhes dirás, meu amor, que nós não falaremos
E que enterrámos vivo o fogo que nos queima.
Tu lhes dirás, meu amor, se for preciso,
Que nos espreguiçaremos na fogueira.
Ary dos Santos

Saturday, 24 January 2026

Poeta Castrado, Não!

 
Serei tudo o que disserem
por inveja ou negação:
cabeçudo dromedário
fogueira de exibição
teorema corolário
poema de mão em mão
lãzudo publicitário
malabarista cabrão.
Serei tudo o que disserem:
Poeta castrado, não!
Os que entendem como eu
as linhas com que me escrevo
reconhecem o que é meu
em tudo quanto lhes devo:
ternura como já disse
sempre que faço um poema;
saudade que se partisse
me alagaria de pena;
e também uma alegria
uma coragem serena
em renegar a poesia
quando ela nos envenena.
Os que entendem como eu
a força que tem um verso
reconhecem o que é seu
quando lhes mostro o reverso:
Da fome já não se fala
é tão vulgar que nos cansa
mas que dizer de uma bala
num esqueleto de criança?
Do frio não reza a história
a morte é branda e letal
mas que dizer da memória
de uma bomba de napalm?
E o resto que pode ser
o poema dia a dia?
Um bisturi a crescer
nas coxas de uma judia;
um filho que vai nascer
parido por asfixia?!
Ah não me venham dizer
que é fonética a poesia!
Serei tudo o que disserem
por temor ou negação:
Demagogo mau profeta
falso médico ladrão
prostituta proxeneta
espoleta televisão.
Serei tudo o que disserem:
Poeta castrado não!
Ary dos Santos

Wednesday, 21 January 2026

Viagem

 
Aparelhei o barco da ilusão
E reforcei a fé de marinheiro.
Era longe o meu sonho, e traiçoeiro
O mar...
(Só nos é concedida
Esta vida
Que temos;
E é nela que é preciso
Procurar
O velho paraíso
Que perdemos).
Prestes, larguei a vela
E disse adeus ao cais, à paz tolhida.
Desmedida,
A revolta imensidão
Transforma dia a dia a embarcação
Numa errante e alada sepultura...
Mas corto as ondas sem desanimar.
Em qualquer aventura,
O que importa é partir, não é chegar.
Miguel Torga

Sunday, 18 January 2026

Pavana para uma burguesa defunta

 
A cabeça de vaca da minha tia mais velha
repousa em guerra lenta no cemitério maior.
Rói-lhe o bicho das contas a fímbria da orelha.
Rói-lhe o rato da raiva as narinas sem cor.

Repousa em paz Raposa que na toca
fareja a galinhola e o fricassé.
Já não mija mas cheira já não vive mas ousa
ser a santa que foi  ser o estrume que é.

A cabeça de vaca de minha tia refoga
nas lágrimas burguesas da família enlatada
cozinha-lhe a memória um viúvo de toga
descasca-lhe a cebola uma filha frustrada.

A cabeça de vaca de minha tia meneia
o sim-sim o não-não dos outros semivivos
na família a razão de se morrer a meias
é a exalação dos suspiros cativos.

Se não fosse o desgosto  se não fosse a gordura
o retrato na sala  o buraco no ventre
se não fosse de força tinha feito a escritura
nem sequer houve tempo para o oiro dos dentes.

Minha tia mastiga  minha tia castiga
na saleta do inferno as almas dos criados:
– não me limpaste o pó  a campa tem urtigas
atrasaste o jantar dos condenados.

A cabeça de vaca de minha tia sem nome
coze no fogo brando do que é passar à história.
Dissolve-se na boca  resolve-se na fome 
Do senhor que a devora em sua santa glória.

Ary dos Santos

Thursday, 15 January 2026

ESTA MANHÃ

 
Estavas mais bonita que nunca esta manhã. E nunca quer dizer: nunca. Não o tinhas estado antes. E é possível que não o venhas a estar depois. Não sei. E nem isso importa. Importante foi ver-te hoje, assim. Linda. Atraentemente linda. Não como um modelo, não como uma actriz, não como um estereótipo. Linda, apenas como uma mulher o pode ser quando não é apenas rosa, ou borboleta, ou cigarra. Quando não é outra coisa que não seja uma mulher.
E eu nem soube o que dizer-te. Poderia ter dito, simplesmente, que estavas linda. E diria a verdade. Mas senti que isso soaria a galanteio, soaria a qualquer coisa que não era mais verdadeira que o meu silêncio. E eu, que vivo das palavras, não tive palavras que te abraçassem, que corressem mansamente pelos teus ombros, que se aninhassem nos teus cabelos, que nas tuas pequeninas orelhas se dependurassem como brincos. Ou como perguntas.
Já vês como a beleza pode calar a poesia! Já vês como uma imagem não vale apenas mil palavras, mas todas as palavras. Ou unicamente as que pudessem bastar.
Esta manhã foi a mais bela de todas as manhãs. Cheia de ti. Do teu brilho, do teu cheiro, do teu sorriso igual ao das maçãs.
Ainda tenho nos meus olhos o brilho dos teus olhos. Nunca, como hoje, desejei estar contigo numa ilha. Uma ilha deserta, mas cheia de nós. E à tua pergunta natural: “o que é que estamos aqui a fazer?”, eu responderia também naturalmente: “se cá estamos, é porque fazemos cá falta!”

Joaquim Pessoa

Monday, 12 January 2026

Esquecimento


O esquecimento é como uma canção
Que, livre de ritmo e cadência, flutua.
O esquecimento é como um pássaro de asas unidas,
estendidas e imóveis, -
Um pássaro que adormece aos ventos da costa
O esquecimento é chuva durante a noite,
Ou uma velha casa na floresta, - ou uma criança.
O esquecimento é branco, - branco como as árvores sem vida,
e pode atordoar a sibila em profecia,
ou enterrar os deuses.
Posso-me lembrar de muitos esquecimentos.

Harold Hart Crane 

Friday, 9 January 2026

**

 
Vararam-te no corpo e não na força
e não importa o nome de quem eras
naquela tarde foste apenas corça
indefesa morrendo às mãos das feras.
Mas feras é demais. Apenas hienas
tão pútridas tão fétidas tão cães
que na sombra farejam as algemas
do nome agora morto que tu tens.
Morreste às mãos da tarde mas foi cedo.
Morreste porque não às mãos do medo
que a todos pôs calados e cativos.
Por essa tarde havemos de vingar-te
por essa morte havemos de cantar-te:
Para nós não há mortos. Só há vivos.
Ary dos Santos

Tuesday, 6 January 2026

Pranto pelo dia de hoje

 
Nunca choraremos bastante quando vemos
O gesto criador ser impedido
Nunca choraremos bastante quando vemos
Que quem ousa lutar é destruído
Por troças por insídias por venenos
E por outras maneiras que sabemos
Tão sábias tão subtis e tão peritas
Que nem podem sequer ser bem descritas
Sophia de Mello Breyner Andresen

Saturday, 3 January 2026

Abandono

 
Por teu livre pensamento
Foram-te longe encerrar
Tão longe que o meu lamento
Não te consegue alcançar
E apenas ouves o vento
E apenas ouves o mar.
Levaram-te a meio da noite
A treva tudo cobria
Foi de noite numa noite
De todas a mais sombria
Foi de noite, foi de noite
E nunca mais se fez dia.
Ai! Dessa noite o veneno
Persiste em me envenenar
Oiço apenas o silêncio
Que ficou em teu lugar
E ao menos ouves o vento
E ao menos ouves o mar.
David Mourão-Ferreira

Thursday, 1 January 2026

EM BUSCA DE UM ANO MAIS FELIZ


Gostaria de visitar hoje todos os meus amigos, abraçá-los com ternura, como se o facebook fosse uma pequena aldeia onde a fraternidade e o carinho têm sido constantes.
Mas porque é impossível essa visita pessoal a cada um de vós, aqui vos deixo, com um abraço imenso, um obrigado por tudo o que de vós recebi ao longo do ano: carinho, ternura, amizade, e o sentimento de que nada é impossível para nós.
Com amor, com dignidade e com luta, poderemos fazer um Ano Novo melhor e ajudar a transformar, também para melhor, um País que é o nosso mas que há muito o não sentimos assim.
E é preciso reafirmar o dito do nosso povo: "O seu a seu dono."
Vamos em frente.
"Dá-me as tuas mãos. Aqui tens as minhas.
Tentaremos passar!"