À noite, tudo se agarrava às pernas e, na escuridão,
um velho deus nostálgico e humano movia-se numa esperança vã, aliviado
por contemplar os objectos.
Nenhum caminho terminara: era a memória
que, cantando, alguma coisa queria ou precisava. No primeiro instante o
silêncio era hóspede, depois continuaria a lembrar quanto de nada se
sabia, o que a dor pequena ia despindo, comentário irreparável do
espelho escuro, arruinado.
Nem sono, nem sonho: tudo branco e separado.
Pelas sete horas, como doença, a casa delirava respirando deslizes,
vertigens, agitações. Até ao meio dia estabelecia-se crescentes
transparências, recompunham-se sem exageros o tempo e a distância.
Joaquim Pessoa
in FLY